Bailarinos adoram fotos, mas as fotos não gostam de todos os bailarinos. Assim como na vida real, existem pessoas mais fotogênicas do que outras. Não só algumas pessoas saem melhor nas fotos, como elas parecem atrair o fotógrafo. Seja pelo treino do olhar ou por algum outro motivo, o fotógrafo se sente atraído a fotografar aquela pessoa naquele momento, em detrimento do resto do grupo. Então quando aparecem as fotos do espetáculo, sempre existe o problema de alguns aparecerem o tempo todo e outro só sair como coadjuvante. Ou nem aparecer. Tenho poucos registros dos espetáculos que dancei porque sempre fui dessas que aparece pouco, ou de costas, ou atrás de alguém, e teve uma vez que o único registro da minha presença foi uma mão.
Eis que o último espetáculo tinha tudo para dar certo, porque eu faria um solo e tinha duas fotógrafas. Finalmente um CD de fotos que valia a pena comprar, em que eu aparecia sozinha ou em destaque várias vezes. Selecionei as fotos em que eu apareço, e dessas as fotos que eu gosto e deu quase meia dúzia de fotos que dá pra exibir com orgulho. Coloquei uma delas no meu facebook e outra foi colocada junto com o pessoal da escola. Só que ver essas fotos, especialmente juntas, me dava um incômodo que eu não sabia identificar. Todos elogiando as poses, o figurino, a produção e eu... Até que não resisti e tirei a foto do meu avatar. As fotos haviam revelado algo que eu já desconfiava: minha falta de interpretação, de duende.
Eu estava com a mesma cara nas duas fotos. Numa coreografia eu estava dançando Farruca, que é uma coreografia masculina, forte, séria, e aquela expressão estava dentro do espírito. Mas a outra coreografia era uma Alegrías, e o próprio nome diz como ela deve ser: leve, alegre. Eu até sorri em alguns momentos no palco, mas eu me senti desconfortável, como se fosse alguém sorrindo sem razão. Como público eu acho lindo quando alguém sorri dançando, mas chegando lá foi estranho, forçado. A questão, na verdade, não é me programar pra sorrir, e sim encontrar esse sentimento quando vou dançar, e que ele faça com que a expressão venha naturalmente. Aquele que era para ser meu grande momento se tornou um doloroso feedback.