sexta-feira, 15 de junho de 2012

Falar

Eu nunca fui uma pessoa de discutir relação. Via as minhas amigas com seus namorados, o tempo todo chamando para conversar seriamente, querendo fazê-los se conscientizar do básico, que parassem de fazer o que fazia mal à relação. Eu achava que isso era até duvidar da inteligência masculina. Na minha opinião eles faziam bem cientes do que estava errado, e que ouvir horas de falação era o preço de se fazer o que quer. Por isso que eu simplesmente terminava, deixava pra lá. Na psicologia e em terapia eu aprendi que as palavras curam, mas sempre acreditei mais na minha palavra me curando, nunca na troca de palavras curando relações. Estavam idealizando as coisas, aquela infrutífera troca de informações. Discussões são sempre tão cansativas, e é tão raro alguém mudar de opinião. Pedidos de desculpa costumam ser apenas uma maneira educada de interromper hostilidades. Quem sabe eu pensasse diferente se não tivesse uma mãe incapaz de discutir comigo. A coisa rapidamente passou a se resumir num "eu pago as contas, eu mando". Contas são coisas tão simples; o poder dela sobre minhas escolhas não foi tão grande assim. Foi aí que ela se calou, e demorei pra perceber que ela queria que eu fizesse o mesmo. Só que como eu não queria ter a sensação de que fazia as coisas escondida, eu não esperava nenhuma pergunta para começar a falar. Eu a deixava sempre a par do que estava fazendo. Quer lhe agradasse ou não, eu falava, falava, falava. Não senti, nunca senti, que isso enriquecia nossa relação. Um dia comecei a achar que a agredia. E com certeza me agredia. Até que eu parei. Parei como pára um peregrino exausto ao se dar conta de que já chegou ao seu destino há muito tempo. Parei com ela, parei com os outros. Parei de falar com os que precisam ser convencidos, não tenho vocação pra isso. Deixo o convencimento nas mãos dos idealistas e cheios de certezas. Pra mim eu construí outros mundos e procurei novas platéias. Agora tenho o luxo e o prazer de falar com os que falam parecido comigo.

Quando finalmente me libertei da fala, entendi o porquê falar. Quem não me ouve já não faz parte da minha vida.