sábado, 26 de maio de 2012

Os lindos

As pessoas mais inábeis na vida em sociedade, que eu conheço, sempre foram os lindos. Algumas vezes nem são tão lindos quando os conhecemos, são apenas muito bonitos. Ou seja, um resquício da beleza original, da época que foram indiscutivelmente lindos. Quando eu digo indiscutivelmente, falo daquela lindeza unânime, sem esforços, que atrai olhares em todos os ambientes, que mesmo quando nos desagrada não conseguimos negar. Geralmente são pessoas de olhos claros, porque nesse país onde quase todo mundo têm olhos castanhos ou pretos, ter olhos claros já é meio caminho pra ser considerado lindo. As mulheres, de preferência, são loiras - e para valorizar ainda mais seus atributos, deixarão o seu cabelo sempre longo. Você vê mulheres de cabelos crespos, castanhos, ondulados, pretos, ruins ou lisos fazerem todo tipo de experiência e cortes radicais, menos as loiras. Porque para elas o seu cabelo é como um patrimônio tombado, algo intocável, parte fundamental de uma lindeza que elas não pode abdicar nem por alguns meses. Os lindos, sejam eles homens ou mulheres, crescem em meio a elogios, pais orgulhosos, pessoas que se atiram aos seus pés e sempre lhe dizem Sim. As roupas lhe caem bem, os óculos lhe caem bem, os aparelhos não atrapalham em nada, até o desleixo os deixa charmosos. Eles não precisam se esforçar pra agradar, aprender a contar piadas, ser o confidente da turma, tirar as melhores notas ou qualquer um desses recursos que as pessoas menos favorecidas pelos deuses da estética fazem. Para eles, basta estar e sorrir.

Só que todos esses recursos que a gente aprende para compensar a falta de lindeza servem de alguma coisa. É raro encontrar um lindo que saiba ouvir, puxar um bom papo ou descontrair um ambiente. Muitos deles são - não tem como definir melhor - completos idiotas. Burros, incultos, sem noção, desagradáveis. Só sabem falar si mesmos, só sabem agir em proveito próprio. Quando o tempo passa e o lindo deixa de ser a criança fofinha, a pessoa mais popular da turma ou o gostoso do ambiente de trabalho, o estar e sorrir pára de fazer efeito e resta apenas o egocentrismo.