terça-feira, 8 de maio de 2012

Aniversário II

Antes leia Aniversário I.

Não lembro se era alguma data redonda, só sei que minha avó se empenhou em fazer daquele aniversário algo mais especial. Ela se propôs a receber. Quando a notícia correu na família, minha mãe e tias já sabiam o que isso significava: as filhas tinham que ficar ajudando na cozinha. Minha vó implicaria com cada corte de legume, com cada escolha de panela, com cada talher colocado na mesa. Quando ela terminasse de cozinhar e os convidados a chamassem para se sentar à mesa, ela se irritaria com a idéia de ficar no meio das pessoas toda desarrumada. Depois desse stress inicial, ela provaria da própria comida e ficaria insatisfeita com alguma coisa. A culpa dessa alguma coisa recairia sobre a pessoa que a ajudou na cozinha: "É muita coisa pra eu fazer, eu toda hora tinha que dar instruções pra Fulana, então me distraí...". Minha mãe pulou fora e me avisou que eu tinha sido convidada apenas pra servir de escravinha. Eu fui com prazer - a cada bandeja de pão chinês ao vapor que ia, eu enfiava uns dois na boca.

Não eram muitos convidados. Não sei se isso acontece com todo mundo, ou se é uma coisa de geração ou se é só na minha família: com os anos os amigos vão se rareando, e as relações passam a se resumir apenas aos parentes mais próximos, nas rixas entre consanguíneos, na comparação entre primos. A única pessoa realmente diferente na festa era uma que chamávamos de Chinesa. Ela era a muambeira da família. Não sei quem chegou a ela, só sei que o fato de ter sangue chinês foi muito útil quando a família foi acometida por uma onda de jogar Mah Jong. Meus tios jogavam na adolescência; começou uma história de que tinham que ensinar para aos netos, e os netos (eu dentre eles) adoraram. No auge chegávamos a ter duas mesas (cada uma, obrigatoriamente, com quatro jogadores) em cada reuniãozinha na minha avó. Ela tem um Mah Jong antigo de marfim, valioso demais pra ser usado, e encomendou outro. Minha tia encomendou uma pra ela e começou a história de quem tinha Mah Jong em casa, se não tinha porque não herdou um, e mesmo os que tinham queriam comprar um extra. Nessa loucura de comprar Mah Jong, a Chinesa lucrou muito e minha avó a quis no aniversário.

No grande dia, os convidados foram colocados na sala de estar mais íntimo - não aquela dos grandes móveis italianos, apenas na de sofás confortáveis, quadros e uma Kuan Yin de porcelana de quase um metro. Eu fazia a transição entre a cozinha e a sala, oferecendo iguarias chinesas e renovando as bandejas. As pessoas conversavam sobre o tempo, a convidada estava bastante à vontade e o clima era muito agradável. Quando todos já havíamos comido bastante e minha avó pode se juntar aos convidados, a Chinesa - já que estávamos todos entre descendentes mesmo - lança a pergunta:
- Vocês já comeram barata? Eu já comi.

Minha avó desviou o rosto, para disfarçar, e logo tentou começar outro assunto. Falar que chinês come barata, pra ela, era um verdadeiro tapa na cara. Ainda mais no aniversário dela, ainda mais no meio de tanta comida. Pra ela não tem essa história de diferença cultural, ela acha vergonhoso e pronto. Nós, que a conhecemos tão bem, sabíamos que ela estava mortalmente aborrecida. Talvez até tivéssemos ajudado a desviar o assunto, se o que viesse em seguida não fosse irresistível demais:
- Barata tem gosto de chocolate.

Aí não teve jeito: a Chinesa teve que nos contar que era criança e estava doente, então sua mãe mandou trazer umas baratas da China. Preparou as baratas (fritas?) e deixou todas numa travessa, empilhadas, em cima da mesa. Ele e os irmãos no começo olharam as baratas com suspeita, até alguém não aguentar de curiosidade e provar uma. No fim, estavam brigando pelas últimas baratas.

Pra minha avó é como se esse aniversário nunca tivesse existido, muito menos essa mulher.