Amizades nascem pelos motivos mais estranhos, e não é difícil, com o
passar do tempo, perceber que aquela pessoa não tem nada a ver com você,
que talvez tudo tenha sido um erro. Um é noite e outro é dia, um é gato
e outro detesta bicho, um é vegetariano e outro é churrascaria.
Procurei nunca, jamais, julgar as minhas amizades por coisas tão
superficiais como gostos. Para mim o suficiente era perceber que
gostavam de mim e me respeitavam. Mesmo quando as diferenças se
acumulavam e eu olhava com receio a maneira como os outros amigos eram
tratados - indiretas, brigas e reconciliações constantes, gritos - eu
não tomava a iniciativa de terminar. Porque éramos amigos, e isso era
tudo. Minha disposição para estar ao lado de alguém diferente era quase
infinita.
Um dia meu amigo diferente me surpreendia me
tratando muito mal, com algo fora de qualquer limite. A linha de
respeito básica que eu sempre pedi era ostensivamente ultrapassada. Eu
me perguntava se pareço tão trouxa assim pra acharem que isso não
significaria o fim da amizade. Tudo terminava ali para sempre, sem
apelação, e eu nem me dava ao trabalho de querer saber o outro lado. O
ex-amigo que se mortificasse com a culpa de ter destruído uma
grande amizade. Era o que eu pensava até pouco tempo. Algumas semanas
atrás, tive um insight: vai ver que não é nada disso, vai ver que fazem
por querer e ficam muito felizes. Minha infinita tolerância, minha
disposição de manter uma amizade com tantas diferenças, tudo isso era
uma merda. O outro não me queria por perto mas não achava meios de fazer
com que eu me tocasse e fosse embora. Então resolveu fazer o
intolerável, justamente por saber que finalmente conseguiria se livrar
de mim. Ao invés de triste, deixei alguém muito aliviado.
Como a gente se ilude, meu deus.