Envelhecer é bom. Claro que não digo no aspecto físico, com as várias
gorduras que aparecem sem que tenhamos feito nada para merecer - ou vai
me dizer que um pão com manteiga ou outro é um motivo justo?, das dores
nas costas e uma série de lentidões. Mas mesmo assim envelhecer é bom.
Tanto que qualquer idiota é capaz de dizer quando encontra alguém mais
jovem - "eu gostaria de voltar a ter a tua idade, só que com a cabeça
que eu tenho hoje". Não precisa ser sábio para aprender alguma coisa com
o passar dos anos. Podemos não aprender sobre o mundo, e continuar nos
surpreendendo com a maldade que há nele, mas aprendemos a respeito dos
nossos próprios mecanismos e isso já é o suficiente para tornar a
própria vida melhor.
Acho que a maior lição que temos
com os anos é a consciência dos limites. Conhecemos os nossos limites, e
por isso passamos longe deles. Essa história de ultrapassar os limites
só é bonita nos filmes. Na vida de verdade, o gostoso é fazer as tarefas
do dia a dia bem descansado, banho tomado, tudo funcionando. Chega de
dar murros contra a parede, ou de fazer tudo com a insegurança da
primeira vez. Ao saber que certas coisas nunca serão mudadas, paramos de
lutar inutilmente. A pessoa pára de lutar contra quem ela é, o
que toma um tempo danado e raramente chega a algum lugar. Timidez é isso
aí, tipo físico é isso aí, o mundo é isso aí. Pergunte aos casais
antigos que se dão bem - as pessoas param de brigar contra o que não tem
solução e vivem melhor assim.
Na relação com o mundo,
vejo que só a idade para fazer abandonar a idéia de provar coisas aos
outros. O engraçado é que os adolescentes se vêem como os campeões
nisso, sendo justamente o contrário - em nenhuma outra fase lutamos
tanto para provar; não sabemos contra que o que eu lutamos, mas lutamos muito. É apenas
testando que somos capazes de descobrir o que nos agrada e o que nos
desagrada. Nem sempre o que o mundo diz que é agradável é agradável para
nós, e vice-versa. Diria muita coisa só existe porque quando as pessoas
descobrem que é ruim, a geração já mudou... Quando as situações ainda
estão chegando, quando elas são apenas um pontinho no horizonte, também
somos, quando mais velhos, capazes de identificar. Muitos anos e
pessoas, muitas situações em que fomos enganados e nos ferramos, nos dão
esse dom. A gente se torna capaz de identificar os sinais e agir antes
do estrago. Não temos que esperar crescer pra saber no que vai dar. Os
mais jovens chamariam de preconceito, de julgamento precipitado. É a
semelhança com o passado que permite a leitura dos pequenos gestos -
pessoas de quem os bichos gostam, pessoas que não devolvem o troco,
pessoas que se descontrolam.
Por fim, existe sempre a
possibilidade, quando se é mais velho, de dizer que não tem idade pra
isso. Contra esse argumento não há o que discutir - mesmo que a gente nem seja tão velho assim.