Eu estava de pé no Ligeirinho, que não estava cheio. Fiquei perto da
porta da frente, olhando a paisagem e pensando na vida. Quando o ônibus
parou num ponto, ouvi o barulho do choro de uma criança e olhei para lá
instintivamente. Foi aí que eu reparei - acho que todos reparamos - numa
mãe com um carrinho de bebê. Ela estava com um jeans colado, salto e
blusinha. Ela chamava atenção por estar muito gostosa. Mas não era um
gostosa qualquer, era um gostosa de revista, um gostosa de plástica.
Peitão, cinturinha e bundão. Como explicar? Ela parecia uma heroína de
HQ adulto, não parecia de verdade. Olhei para as outras pessoas no
ônibus e mesmo as jovens, mesmo as magras, mesmo as bundudas ou
peitudas, mesmo as lindas não eram como ela. O corpo dela estava tão
"perfeito" que não se parecia com nenhum outro corpo ali - ela pertencia
à uma espécie diferente, daquelas mulheres que saem em capa de revista.
Um lado meu achou lindo, e pensou no prazer de vestir qualquer roupa
com a certeza de ficar ótima. Já o outro lado a achou bizarra e ficou
com medo de no futuro sermos todas obrigadas a ficar assim.