Durante muito tempo eu achei que o que me impedia de ser um mulherão
era a aparência. No dia que eu tivesse um corpão para exibir... Os anos
passaram e a adolescência passou, e com ela muitos complexos
injustificados. Mas o fim da adolescência não me tornou um mulherão.
Fiquei mais magra e mais gorda, fui a mais nova e a mais velha, me vesti
melhor e pior, já tive cabelão e cabelinho, fui solteira e hoje sou
casada. E em nenhum momento, entre uma amizade masculina e outra, entre
uma festa e outra, entre uma conversa e outra, fui um mulherão. Pensei
também que tinha a ver com a altura, que todo mulherão precisa ter pelo
menos mais de 1,70. Aí conheci uma bailarina que conseguia ser um
mulherão com a mesma altura que eu, 1,65. Será que todo mulherão tem
peitão? Porque todas as que eu conheci tinham, ela tinha, e a forma como
lembro dela é de bota, collant decotado e capa curta fechada por um
cinto, andando pelo festival de Joinville e fazendo com que todos os
heteros presentes no local (muito menor do que a média em outros
lugares, reconheço) quase se jogassem no meio do caminho para chamar sua
atenção. Foi com ela que tive a certeza de que todo mulherão acha muito
natural que os homens se interessem por elas. Ou seja, eu sempre fiz
tudo errado - eu tratava mal todos aqueles que não tinham chance. Do
mulherão loiro e siliconado que vi na rua, aprendi que ser mulherão é um
investimento que é pago com cantadas. Mulherão escondido debaixo de
roupas discretas não existe, porque mulherão é justamente pra atrair
olhares. Ser mulherão é um modo de vida, de se relacionar com o sexo
oposto, de que colocar como objeto de desejo. Por isso que eu nunca fui e
nunca serei um mulherão. E digo isso sem dores, sem achar que tenho
menos valor por causa disso. Mulherão é apenas mais uma das muitas
formas de ser feminina.