quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Memória

Uma vez eu li um caso de neuropsicologia de um sujeito que tinha uma memória incrível. Aplicavam um teste nele e anos depois ele ainda lembrava de todas as perguntas. O pesquisador observou que essa memória toda não fazia bem às suas relações: por se lembrar de tudo o que havia se passado com ele, isso o tornava rancoroso e ele não tinha muita vontade de estar com as pessoas. Mesmo sem uma memória tão impressionante, eu sempre tive boa memória. Lembro de fatos em geral; sou a primeira a decorar e repetir as coreografias, abandono um livro durante meses e retorno sem qualquer problema, nunca esqueço um rosto. Meu problema é com nomes, mas sei que isso é seletivo: se uma pessoa significa pouco ou nada pra mim, sou capaz de esquecer o seu nome em poucos dias. Sempre fui, assumidamente, rancorosa. Posso aguentar várias pequenas ofensas, o que é diferente de esquecer. E quando alguém faz algo intolerável, a história acaba ali e para sempre. Não estou nem aí se é amigo de infância ou se é o Papa. Vai ver que é o mesmo mecanismo: memória e rancor.

Agora minha sogra fica nos chamando pra ir lá sem ter alguma data especial. O nosso acordo, há anos, é: o Luiz vai lá com frequencia e eu só apareço em aniversários e festas de fim de ano. Agora ela quer que eu vá, só porque é feriadão, ou porque minha cunhada voltou de viagem ou pra comer uma pizza. Ela claramente quer tentar uma relação mais próxima. Só que eu não aceito a reaproximação dela. Ela pode ter esquecido mas eu não: o nervosismo que eu passava cada vez que ia vê-la, a frieza da família inteira, o orgulho do sangue italiano (grandes merdas), as indiretas que ela me dava assim que o Luiz se afastava, ela ter dito pra minha mãe durante o meu casamento que aquilo não duraria nem três anos. Ela me tratou mal assim que eu cheguei; primeiro porque eu era apenas uma namoradinha e depois porque ela achou que o casamento foi impulsivo. Faz dez anos E foi ontem. Pra mim é a mesma lógica de quem maltrata garçom: é pela maneira como as pessoas tratam quem está por baixo que as conhecemos.