Uma vez eu li um caso de neuropsicologia de um sujeito que tinha uma
memória incrível. Aplicavam um teste nele e anos depois ele ainda
lembrava de todas as perguntas. O pesquisador observou que essa memória
toda não fazia bem às suas relações: por se lembrar de tudo o que havia
se passado com ele, isso o tornava rancoroso e ele não tinha muita
vontade de estar com as pessoas. Mesmo sem uma memória tão impressionante,
eu sempre tive boa memória. Lembro de fatos em geral; sou a primeira a
decorar e repetir as coreografias, abandono um livro durante meses e
retorno sem qualquer problema, nunca esqueço um rosto. Meu problema é
com nomes, mas sei que isso é seletivo: se uma pessoa significa pouco ou
nada pra mim, sou capaz de esquecer o seu nome em poucos dias. Sempre
fui, assumidamente, rancorosa. Posso aguentar várias pequenas ofensas, o
que é diferente de esquecer. E quando alguém faz algo intolerável, a
história acaba ali e para sempre. Não estou nem aí se é amigo de
infância ou se é o Papa. Vai ver que é o mesmo mecanismo: memória e
rancor.
Agora minha sogra fica nos chamando pra ir lá
sem ter alguma data especial. O nosso acordo, há anos, é: o Luiz vai lá
com frequencia e eu só apareço em aniversários e festas de fim de ano.
Agora ela quer que eu vá, só porque é feriadão, ou porque minha cunhada
voltou de viagem ou pra comer uma pizza. Ela claramente quer tentar uma
relação mais próxima. Só que eu não aceito a reaproximação dela. Ela
pode ter esquecido mas eu não: o nervosismo que eu passava cada vez que
ia vê-la, a frieza da família inteira, o orgulho do sangue italiano
(grandes merdas), as indiretas que ela me dava assim que o Luiz se
afastava, ela ter dito pra minha mãe durante o meu casamento que aquilo
não duraria nem três anos. Ela me tratou mal assim que eu cheguei;
primeiro porque eu era apenas uma namoradinha e depois porque ela achou
que o casamento foi impulsivo. Faz dez anos E foi ontem. Pra mim é a
mesma lógica de quem maltrata garçom: é pela maneira como as pessoas
tratam quem está por baixo que as conhecemos.