Uma amiga observou que eu sou uma das poucas pessoas que coloca sua
opção política no perfil do Facebook: de esquerda. Não faz tanto sentido
levando em conta que meu perfil é muito pobre em informações e não sou
do tipo que anda com o Manifesto na bolsa. Aquela informação tenta sanar
um problema estranho que eu tenho. Ela quer representar muito mais do que
política - é pra dizer que sou pelas minorias, pelo preto e pobre, pelos
frascos e comprimidos, pelos animais indefesos, pelo direito de ver
novela e por muitos outros discursos contrários à visão elitista que a
classe média tem de si mesma.
O problema sou eu, na
verdade. Sou calma e sem dúvida tenho cara de certinha. Casada, hetero,
branquinha, cabelo liso, sotaque do sul, sem tatuagens ou piercings,
curso superior. Todo aquele perfil agrada vovó. Então nego olha
pra mim e acha que compartilho da sua visão elitista e bem nascida da
vida. Vocês não imaginam as opiniões facistas que já ouvi das pessoas
mais insuspeitas. São situações inesperadas e bizarras: aquela vovó
boazinha que faz tricô vira pra mim e diz que os negros são ..., ou
amigos sorridentes comendo pizza começam a falar que é o nordeste que
afunda o país porque .... Defesas apaixonadas da propriedade privada e horror a esse gente que fede e come pelas ruas. A parte mais ofensiva é a liberdade
com que falam perto de mim, de nem passar pela cabeça deles que eu penso
diferente. Voltando à parte mais política: na época do Lula recebia
incansáveis e-mails falando mal dele e do PT. Tudo bem se citassem
mensalão, excesso de viagens ou má administração. Os e-mails me
incomodavam porque o problema Lula era ter nove dedos, ser um burro sem
curso superior, sapo barbudo-feio-nordestino. Fernando Henrique sim era
Doutor e fazia boa figura lá fora... Ou seja: opções políticas justificadas com os piores preconceitos. Tento avisar, com o meu de esquerda, que não sou assim e quero distância de quem seja.