Eu achava muito divertido. Ficávamos em fila e, ao som do batuque,
tínhamos de dar saltinhos. Saltar alto, com uma perna dobrada (em retiré) e a outra esticada, os braços se erguendo e olhando para o lado. Eu apelidei
aquele salto de "propaganda de amaciante". Era o primeiro lugar à sério
que eu dançava, depois de ter passado pela minha primeira audição. Eu
ainda guardava no espírito a alma de uma universitária, e achava tudo
aquilo tão novo, tão divertido. Exercícios que tinham o objetivo de
desenvolver a coordenação motora - quem fazia isso depois da infância?
Por isso eu me sentia sempre um pouco brincando, sempre um pouco na
infância. Alguns ficavam constrangidos, outros se aborreciam por não
conseguirem fazer, e isso pra mim só era uma prova de que nem todo mundo
sabe brincar.
Foi num espírito semelhante que fui
fazer curso de preparação de musicais, em Joinville, com uma amiga que
fiz na dança e considerava muito. Não apenas o curso não foi nada do que
eu esperava como a amizade acabou ali, e depois de colocar os pés em
Curitiba nunca mais nos falamos. Um grande problema do curso - hoje eu
sei - era o fato dele ser ministrado por um cara da Globo e ser uma
oportunidade de entrar lá. O musical era divertido, as músicas eram
divertidas, as coreografias eram divertidas - só o ambiente que era
péssimo. Competição, competição, competição. Eu era ruim demais, com
apenas três anos de dança, perto de pessoas que até academia tinham.
Então, não era contra mim que os fogos eram destinados - eu recebia o desprezo destinado aos muito ruins. Eu não entendia como pessoas podiam dançar, que era algo
tão divertido, e não se divertirem, e tornarem aquilo mais um motivo de
infelicidade. Dança e competir me pareciam um contrasenso.
Poucos
meses depois, na escola, eu estava da mesma maneira: vendo quem dançava
bem, querendo um lugar melhor o palco, reparando nos puxa-sacos,
tentando obter as informações mais privilegiadas. Comecei a ficar assim
quando a dança finalmente me fisgou, quando comecei a querer ser alguém.
Aí percebi que até então eu os olhava de fora, como se aquilo não fosse
um mundo sério. O mundo sério havia sido, pra mim, até aquela data,
apenas o mundo acadêmico. Eu não havia me dado conta que os saltinhos e a
coordenação motora eram o trabalho dos bailarinos, a maneira como se
viam, como eram avaliados, sua profissão. Só então percebi, com um certo
desapontamento, que onde quer que o ser humano coloque importância, lá
haverá competição, inveja, fofoca, traição e tudo o que há de pior,
porque poucos conseguem levar à sério sem perder a leveza.