quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Dança divertida

Eu achava muito divertido. Ficávamos em fila e, ao som do batuque, tínhamos de dar saltinhos. Saltar alto, com uma perna dobrada (em retiré) e a outra esticada, os braços se erguendo e olhando para o lado. Eu apelidei aquele salto de "propaganda de amaciante". Era o primeiro lugar à sério que eu dançava, depois de ter passado pela minha primeira audição. Eu ainda guardava no espírito a alma de uma universitária, e achava tudo aquilo tão novo, tão divertido. Exercícios que tinham o objetivo de desenvolver a coordenação motora - quem fazia isso depois da infância? Por isso eu me sentia sempre um pouco brincando, sempre um pouco na infância. Alguns ficavam constrangidos, outros se aborreciam por não conseguirem fazer, e isso pra mim só era uma prova de que nem todo mundo sabe brincar.

Foi num espírito semelhante que fui fazer curso de preparação de musicais, em Joinville, com uma amiga que fiz na dança e considerava muito. Não apenas o curso não foi nada do que eu esperava como a amizade acabou ali, e depois de colocar os pés em Curitiba nunca mais nos falamos. Um grande problema do curso - hoje eu sei - era o fato dele ser ministrado por um cara da Globo e ser uma oportunidade de entrar lá. O musical era divertido, as músicas eram divertidas, as coreografias eram divertidas - só o ambiente que era péssimo. Competição, competição, competição. Eu era ruim demais, com apenas três anos de dança, perto de pessoas que até academia tinham. Então, não era contra mim que os fogos eram destinados - eu recebia o desprezo destinado aos muito ruins. Eu não entendia como pessoas podiam dançar, que era algo tão divertido, e não se divertirem, e tornarem aquilo mais um motivo de infelicidade. Dança e competir me pareciam um contrasenso.

Poucos meses depois, na escola, eu estava da mesma maneira: vendo quem dançava bem, querendo um lugar melhor o palco, reparando nos puxa-sacos, tentando obter as informações mais privilegiadas. Comecei a ficar assim quando a dança finalmente me fisgou, quando comecei a querer ser alguém. Aí percebi que até então eu os olhava de fora, como se aquilo não fosse um mundo sério. O mundo sério havia sido, pra mim, até aquela data, apenas o mundo acadêmico. Eu não havia me dado conta que os saltinhos e a coordenação motora eram o trabalho dos bailarinos, a maneira como se viam, como eram avaliados, sua profissão. Só então percebi, com um certo desapontamento, que onde quer que o ser humano coloque importância, lá haverá competição, inveja, fofoca, traição e tudo o que há de pior, porque poucos conseguem levar à sério sem perder a leveza.