Eu estava passeando com o meu pai pelas Lojas Americanas. Até a
adolescência, eu era louca por cartões. Sempre ia nas lojas e queria ver
todos e me surpreender. Gostava dos desenhos, das cores dos envelopes,
da idéia de falarem na frente algo que se completava de uma maneira
imprevista depois. Então eu vi um que tinha um desenho triste na frente e
dizia "a amizade dos outros pode ser preto e branca", aí abria o cartão
e a mesma figura da frente do cartão ressurgia, agora alegre e colorida
- "mas a nossa é colorida". Adorei o cartão e quis que meu pai comprasse.
Queria dar de presente para a Natascha, minha melhor amiga durante toda
a infância.
- Não, esse você não pode mandar. Escolhe qualquer outro cartão menos esse.
Mas
eu queria aquele. Porque era o que expressava o que eu sentia, que era
sem graça ficar sozinha e a Natascha era a amiga com quem eu mais
gostava de brincar. Porque preto e branco na frente e colorido dentro.
Porque era o cartão que falava da nossa amizade. Aí meu pai disse que
não podia porque aquele cartão não falava de amizade. Que amizade
colorida era uma espécie de namoros entre adultos e era disso que o
cartão falava. Ia dar impressão de que eu e a Natascha éramos namoradas.
Fomos passear pelo resto da loja, quietos. Até que na hora de ir embora, meu pai começou a voltar para a sessão de cartões.
- Esquece o que eu disse, vamos comprar aquele cartão pra Natascha.Mas aí eu é que não queria mais.