Meu pai é doido por carnaval; minha mãe me doutrinou desde criança
contra o carnaval. A velha luta ideológica de pais separados. Do
ridículo que é alguém dar entrevistas dizendo que "meus pés doem, estou
muito cansado, mas ainda pretendo pular mais dois dias"; da perda de
tempo e dinheiro que isso representa para o país; da indecência das
mulheres semi-nuas e o sexo desenfreado. Eu repeti esse discurso durante
muito tempo. Com os anos, a repetição ficava cada vez menos convicta,
porque em algum lugar eu não conseguia ser contra o carnaval. Não
conseguia discursar contra um período do ano que eu aproveitava bem,
mesmo que o meu aproveitar sempre tivesse mais a ver com a folga do que
com festa. A idéia da produtividade, pensando bem, tem um ranço
capitalista incontestável: então é criminoso parar durante alguns dias,
devemos gerar capital sem descanso o tempo todo? Sobre o sexo, não vejo
ninguém se transformando em bicho durante o carnaval, cada um faz de
acordo com a sua natureza, dentro ou fora (opa!) do carnaval. E os desfiles -
embora longos demais para a minha paciência - têm um indiscutível mérito
artístico, mobilizam pessoas, são interessantes. Tenho muita empatia
por quem desfila, é um grande palco. Sem dizer que fiquei sabendo que
alguns carnavais ainda têm uma característica familiar e tradicional
muito bonita. Quando alguém fala mal de carnaval perto de mim, achando
que com isso demonstra sua pureza moral e cultura, eu tenho vontade de
bocejar.
Só que tem uma coisa que eu não consigo mudar e
acho que morrerei assim: não consigo ter samba no pé. Sou capaz de
aprender danças muito mais difíceis, mas o samba não me vai. Esse
desgosto mamãe não terá.