sábado, 11 de fevereiro de 2012

Amor em ódio

Não acho admiração em excesso bom. Se alguém diz que me admira, tenho vontade de falar "Não, espera!". Alguns disfarçam mais, outros têm coisas piores, mas todos têm seus defeitos. Conhecer a melhor face nos faz gostar até de psicopatas. Quando um começa a olhar para o outro como especial demais, como se fosse muito além de todas as outras pessoas, está a um passo de odiar. Sim, eu acredito que o adorador de hoje é o hater de amanhã. Não acho que seja da natureza humana admirar sem ambiguidade, colocar o outro no alto sem desejar secretamente que ele caia. Por isso que gostamos tanto de ver as celulites das celebridades, os seus chifres, os problemas com a família. Um lado nosso ama e o outro lado deseja que não seja tudo tão bom, que os defeitos, a vida com problemas, os traumas de infância e os problemas com dinheiro estejam em algum lugar. Como se gostar e não gostar fossem parte do mesmo mecanismo, e apenas gostar seja uma perversão, que faz com que a parte ruim fique represada. Quem oferece muito espera muito também, então é muito fácil magoar. Um gesto impensado e o pedestal pode ruir. O que seria perfeitamente normal e desculpável nos outros é imperdoável no ídolo. Isso é o que o mais novo hater dirá. Para mim, o mecanismo é: se o outro está no alto, nós necessariamente estamos embaixo, e todo mundo sabe que ficar no alto é mais gostoso. Então, a coisa toda já começou errada. Quem um dia adorou, não consegue sair da vida do outro à francesa, como se nada fosse. Ele precisa xingar, precisa empreender campanhas, precisa deixar o ambiente pesado. Pra sepultar e alimentar para sempre o que um dia foi amor, ele começa a pesquisar os defeitos: acompanha a vida do outro de longe, torna-se assíduo leitor do que ele escreve, une-se a outros "inimigos". Tudo continua no lugar - a mesma intensidade, a mesma pessoa no coração.