Não acho admiração em excesso bom. Se alguém diz que me admira, tenho
vontade de falar "Não, espera!". Alguns disfarçam mais, outros têm
coisas piores, mas todos têm seus defeitos. Conhecer a melhor face nos
faz gostar até de psicopatas. Quando um começa a olhar para o outro como
especial demais, como se fosse muito além de todas as outras pessoas,
está a um passo de odiar. Sim, eu acredito que o adorador de hoje é o
hater de amanhã. Não acho que seja da natureza humana admirar sem
ambiguidade, colocar o outro no alto sem desejar secretamente que ele
caia. Por isso que gostamos tanto de ver as celulites das celebridades,
os seus chifres, os problemas com a família. Um lado nosso ama e o outro
lado deseja que não seja tudo tão bom, que os defeitos, a vida com
problemas, os traumas de infância e os problemas com dinheiro estejam em
algum lugar. Como se gostar e não gostar fossem parte do mesmo
mecanismo, e apenas gostar seja uma perversão, que faz com que a parte
ruim fique represada. Quem oferece muito espera muito também, então é
muito fácil magoar. Um gesto impensado e o pedestal pode ruir. O que
seria perfeitamente normal e desculpável nos outros é imperdoável no
ídolo. Isso é o que o mais novo hater dirá. Para mim, o mecanismo é: se o
outro está no alto, nós necessariamente estamos embaixo, e todo mundo
sabe que ficar no alto é mais gostoso. Então, a coisa toda já começou
errada. Quem um dia adorou, não consegue sair da vida do outro à
francesa, como se nada fosse. Ele precisa xingar, precisa empreender
campanhas, precisa deixar o ambiente pesado. Pra sepultar e alimentar
para sempre o que um dia foi amor, ele começa a pesquisar os defeitos:
acompanha a vida do outro de longe, torna-se assíduo leitor do que ele
escreve, une-se a outros "inimigos". Tudo continua no lugar - a mesma
intensidade, a mesma pessoa no coração.