quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Scarlett

Eu vi ...E o vento levou umas dez vezes. O problema é que assisti quando era pequena, então eu lembro do filme inteiro e não o entendia. Nas últimas vezes eu parava de assistir quando ela casava com Rhett e tinham a filha, porque não queria ver o que acontecia depois. Ler o livro está me trazendo à memória todas as cenas, agora com mais informações e entendendo realmente do que o livro se trata. Sabe como é visão de criança - eu não entendia o amor de Scarlett pelo loirinho sem graça, não entendia as atitudes dele quando ela se declarava, não entendia como ela não gostava da Melania, não entendia a trajetória do Rhett - seu papel de aproveitador durante a guerra, porque ele muda de idéia, o abandono de Scarlett. Agora tenho suspirado, revisto as cenas no youtube e me apaixonado como se fosse a primeira vez.

Tenho com a Scarlett outra relação, totalmente insuspeita: eu me achava uma Scarlett. Tudo porque li num livro de astrologia que Scarlett era o protótipo da mulher de áries. Eu nem sou de áries, só tenho o ascendente. Mas li a descrição, me identifiquei, achei a imagem ótima e abracei a idéia. Gostava de me imaginar Vivian Leigh, que dentro de mim havia uma mulher capaz de seduzir vários homens e entregar meu coração apenas para um; que eu seria capaz de matar, enganar e o que fosse preciso para defender minha família; que eu seria mulher por fora e uma fortaleza por dentro. Nada do que eu fiz no decorrer da vida confirmou esse parentesco forçado. Quando encontro uma mulher com a voz meio grossa, o andar desajeitado ou sem vaidade, também acho que me vejo, porque um outro lado meu tinha certeza de que era assim. Esse lado ignorava que eu sou soprano leve, que jogo sapatos fora sem gastar a sola e a maneira como detalhes na minha aparência são capazes de sugar minha atenção. Isso sem falar das inseguranças de adolescente que são verdadeiras instituições: me achar gorda, me achar feia, me achar esquisita, me achar sem atrativos.

Eu tenho arrepios cada vez que vejo uma mulher muito jovem tomar decisões definitivas sobre sua aparência ou sobre seu futuro. Porque eu sei a adolescente decidida (Scarlett?) e muito equivocada que fui. Se alguém tivesse me dado a opção, eu teria colocado silicone, feito lipo, tatuagem, modificado sem dó um corpo que eu não conhecia. Também me via facilmente seguindo um guru ou me casando com o primeiro namorado - só faltou eu ter encontrado alguém com um pouco mais de lábia e vontade. Porque eu tinha certeza de quem eu era, uma certeza onde se misturavam imagens confusas: o mundo visto sob o prisma da minha família, idéias absorvidas de outras pessoas da minha faixa etária e meios de comunicação, fantasias sobre quem eu gostaria de ser, opiniões que não haviam sido confrontadas com a realidade. Hoje olho para trás e acho engraçado perceber que muitas dessas imagens são opostas ao que sou. Felizmente, tive tempo e oportunidade para errar e mudar de idéia.