terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Para as visitas

Hoje não dá mais, com os nossos apartamentos minúsculos, de ambientes integrados e até sem paredes. Os imóveis de classe media de antigamente, que ultrapassavam com facilidade os duzentos metros quadrados, hoje são considerados enormes. Antes não era. Antes as pessoas tinham tanto espaço e tantos cômodos que era comum ter uma sala de visitas que era para visitas de verdade, ou seja, que as pessoas comuns da casa não usavam. Era o ambiente que tinha os melhores sofás, as melhores cadeiras, os tapetes e a mesinha de centro, então não se podia arriscar que eles ficassem puídos e manchados pelo uso e crianças brincando em cima. Na casa dos meus sogros - que foi vendida e transformada num pensionato pouco depois do meu casamento - tinha uma dessas. Toda casa era assim. Lembro que me senti muito adulta quando pude conversar com a minha vizinha na sala de visitas da casa dela, no misterioso sofá de almofadas estampadas em cima de uma estrutura de cimento (comum no nordeste e incomum no sul). Já na casa de uma colega de faculdade, onde o tapete da sala branquíssimo, de pele de coelho, sempre passamos contornando, nunca provei de seus luxos. Como num final infeliz de vilões, anos depois a casa foi assaltada, e os assaltantes fizeram questão de limpar os pés sujos de lama naquele tapete.

Raciocínio antigo, eu diria. Diria que não somos mais assim, que hoje fazemos questão de usar o que temos de melhor nas nossas casas, ao invés de guardar para os outros. Nos damos o melhor sofá, usamos a mesma louça usada para receber as pessoas, dispensamos aos outros a mesma coisa do nosso dia a dia. Estamos assim, em pé de igualdade com a exceção e com quem vem de fora. Eu diria isso, até pouco tempo atrás; até resolver fazer uma limpa no meu guarda-roupa e descobrir roupas lindas, de caimento perfeito, novas ou semi-novas, todas compradas por mim e que ficaram esquecidas, enquanto uso as mesmas roupas de sempre e espero ocasiões especiais que nunca chegam.