Escrever pra mim é algo banal. Aprendi cedo, na escola, na época
certa. Minha aspiração, quando criança, era ver filmes legendados sem
ninguém precisar narrar pra mim. Por gostar de ler, aprendi as regras
gramaticais intuitivamente e nunca tive grandes problemas com a
ortografia. Mesmo a idéia de escrever bem, de ter algo diferente pra
dizer, é algo que ainda me causa suspeita. Sei que vocês vêem aqui e me
lêem; a prática me levou a saber o momento certo de cortar as frases ou
de prolongá-las, o que consigo perceber claramente quando leio textos
antigos do blog (e tenho vontade de deletá-los). Trechos mal escritos me
saltam os olhos, minha mente organiza as frases naturalmente. Bom de
verdade com as letras era Guimarães Rosa, o resto é só gente
alfabetizada.
Quando aprendemos uma linguagem desde
criança, nos tornamos experts sem nenhum esforço. Essa falta de esforço é
que permite inovar, brincar, alçar vôos maiores, ou até mesmo ter
qualidade apenas ao fazer o básico. Penso naqueles que dominam
linguagens que eu amo e que não foram passadas pra mim desde criança:
músicos, que lêem partituras, adivinham acordes em canções, que
desenvolveram uma coordenação motora precisa nas mãos. E, claro,
bailarinos, que aprenderam a submeter cada movimento ao que querem, que
dominam a técnica de girar e não perder o eixo, que conseguem se
equilibrar numa base mínima, que podem alterar a sua movimentação de
acordo com a música sem perder a qualidade. Mas poderia estar falando
também em nadar, fazer uma horta, programar um site, cozinhar, andar a
cavalo, aprender um novo idioma, costurar, pilotar um avião ou saltar
dele. É difícil entender, pra quem foi alfabetizado desde criança, que
dificuldade um adulto pode ter em entender a lógica de juntar vogais e
consoantes, os cálculos sonoros na hora de juntar as sílabas, a vitória
em finalmente escrever o próprio nome. Somos todos assim, quando
inventamos de começar depois de adultos. Na maioria das vezes gente se
convence de que não pode e não tenta... mas quando tenta! Vejam um
adulto aprendendo, é lindo. Funciona com qualquer adulto e com qualquer
linguagem. Aprender desde cedo traz domínio, tranquilidade e
virtuosismo; aprender tarde traz tantas pequenas vitórias, tanta
superação, que às vezes chega a ser mais desejável ser sempre um
principiante.