domingo, 22 de janeiro de 2012

Louco é o desejo do amador

Escrever pra mim é algo banal. Aprendi cedo, na escola, na época certa. Minha aspiração, quando criança, era ver filmes legendados sem ninguém precisar narrar pra mim. Por gostar de ler, aprendi as regras gramaticais intuitivamente e nunca tive grandes problemas com a ortografia. Mesmo a idéia de escrever bem, de ter algo diferente pra dizer, é algo que ainda me causa suspeita. Sei que vocês vêem aqui e me lêem; a prática me levou a saber o momento certo de cortar as frases ou de prolongá-las, o que consigo perceber claramente quando leio textos antigos do blog (e tenho vontade de deletá-los). Trechos mal escritos me saltam os olhos, minha mente organiza as frases naturalmente. Bom de verdade com as letras era Guimarães Rosa, o resto é só gente alfabetizada.

Quando aprendemos uma linguagem desde criança, nos tornamos experts sem nenhum esforço. Essa falta de esforço é que permite inovar, brincar, alçar vôos maiores, ou até mesmo ter qualidade apenas ao fazer o básico. Penso naqueles que dominam linguagens que eu amo e que não foram passadas pra mim desde criança: músicos, que lêem partituras, adivinham acordes em canções, que desenvolveram uma coordenação motora precisa nas mãos. E, claro, bailarinos, que aprenderam a submeter cada movimento ao que querem, que dominam a técnica de girar e não perder o eixo, que conseguem se equilibrar numa base mínima, que podem alterar a sua movimentação de acordo com a música sem perder a qualidade. Mas poderia estar falando também em nadar, fazer uma horta, programar um site, cozinhar, andar a cavalo, aprender um novo idioma, costurar, pilotar um avião ou saltar dele. É difícil entender, pra quem foi alfabetizado desde criança, que dificuldade um adulto pode ter em entender a lógica de juntar vogais e consoantes, os cálculos sonoros na hora de juntar as sílabas, a vitória em finalmente escrever o próprio nome. Somos todos assim, quando inventamos de começar depois de adultos. Na maioria das vezes gente se convence de que não pode e não tenta... mas quando tenta! Vejam um adulto aprendendo, é lindo. Funciona com qualquer adulto e com qualquer linguagem. Aprender desde cedo traz domínio, tranquilidade e virtuosismo; aprender tarde traz tantas pequenas vitórias, tanta superação, que às vezes chega a ser mais desejável ser sempre um principiante.