Não encontrei alguém, como no post do Milton. Eu estava passeando por perfis de antigos colegas de faculdade, e encontrei aquela que foi, durante alguns anos, minha melhor amiga. Éramos um grude; hoje tenho clareza de que não gosto desse tipo de amizade, mas sempre achava muito difícil de evitar quando o outro se dispunha. Eu era a intelectualzinha, com mãe fazendo mestrado e a família toda de bacharéis. Ela era a primeira universitária da família. Eu tinha uma vasta cultura letrada; ela sabia falar com desconhecidos e descobrir que tipo de decote deixa um homem louco - "cada um gosta de uma parte do corpo diferente. Só observando a reação de cada um a um decote diferente pra saber". Meus gostos eram sempre o que havia de mais selecionado e elitista, tanto que só ouvia música clássica. Ela, mesmo sem saber, era a minha representante do senso comum - quando acontecia alguma coisa e eu queria saber o que a maioria das pessoas pensava a respeito, eu a consultava.
Eis que fuxiquei o facebook dela. Ela trabalha na mesma área que cursamos juntas. Tem foto com nosso ex-professor mais querido - aquele que nos chamou de maior QI do curso, olhando nos meus olhos, e que ela vibrou por nunca ter ouvido algo assim. Eu deixei para trás esse futuro promissor e fui atrás de outros, que também deixei para trás... Quase não ouço música clássica e defendo Michel Teló, embora não o ouça também. Ela é uma profissional, sabe exatamente que estante lhe interessa ao entrar nas livrarias. Eu sou essa que vos escreve. Dentre tantas coisas naquele perfil, tantos congressos e especializações, descobri as famosas citações - que podem ser o pseudo-texto do Veríssimo, ou figuras de livros cometendo suicídio, ou qualquer coisa do gênero - repudiando Big Brother e todas as pessoas de mente pequena que assistem aquela merda. Ou seja: eu. Aí eu me pergunto - é a minha decadência, a minha queda?