Perto da casa da minha mãe há muitas padarias, o que permitia a uma gourmet de pães como ela escolher a melhor fornada. Eu me dispunha, para isso, a andar várias quadras, ignorando várias padarias, até chegar naquela com o pão mais gostoso. Estava voltando de lá, tranquilamente, e vi de longe uma velhinha no portão de casa, olhando para os lados. Ela usava um vestidinho de chita, tinha o cabelo todo branquinho e morava numa das casinhas polonesas de madeira que pouco a pouco desapareceram do bairro. Quando me viu, a velhinha sorriu e me chamou com a mão. Fui até ela e ouvi um pedido inusitado:
- Moça, você pode ir naquela padaria pra mim comprar uma cervejinha? Aqui está o dinheiro trocado, é rapidinho, a padaria fica menos de uma quadra daqui e você não vai levar nem cinco minutos. É que se eu vou lá eles me conhecem e não vendem pra mim.
Fui. O sentimento de que havia uma contravenção na minha atitude me ocorreu quando peguei a cerveja e fui pagar. Ninguém estranhou e nem me perguntou nada, mas se algum dos presentes me conhecesse saberia que eu jamais compraria uma cerveja para mim, e aquela continua sendo a única cerveja que eu comprei na minha vida. Quando voltei com a lata, a velhinha abriu um largo sorriso, me agradeceu muito, me abençoou e correu com a latinha pra dentro de casa. Nunca mais a vi.
Quando cheguei em casa e contei o que fiz pra minha mãe, ela me disse:
- Você é louca, como é que você fez uma coisa dessas? Na certa aquela velhinha é álcoolatra, foi proibida de beber pela família e o pessoal da padaria estava sabendo! Você ajudou um álcoolatra a beber escondido!
Acho que deve ter sido isso mesmo. Mas sempre que me lembro do vovô do Little Miss Sunshine, me parece que não fiz nada tão grave.