Eu não sei quem começou com a história, o fato é que aquelas garrafinhas geladas se tornaram uma mania lá na Dança. Elas eram coloridas e dentro tinha um tubinho que devia ser deixado no congelador. Depois, era só encaixar de novo na garrafa e a bebida ficava gelada por horas. Na Track Field era caríssima, mas em alguns lugares ela era apenas cara. Cada dia alguém aparecia com uma cor diferente, mas eu não estava convencida. Até que uma amiga, tão viciada quanto eu, deixava o matte leão congelando a noite inteira e tirava de manhã. À tarde, na hora da aula, o matte estava numa temperatura ótima. Foi o argumento final, eu precisava de uma garrafa daquelas.
Uma das meninas, que estudava na federal, disse que a achou a tal garrafa mais barato, numa lojinha de lingerie. Lá custava quarenta e poucos reais. Encomendei. No dia combinado, ela me trouxe a garrafa, me mostrou a nota fiscal e eu lhe dei uma nota de cinquenta reais. Ela me disse que no dia seguinte traria o troco. Fiquei bem tranquila e no dia seguinte estranhei quando ela apenas me cumprimentou e não veio falar comigo. Achei que ela viria no outro dia e também não veio. E no outro, e no outro, e assim a semana acabou. Segunda-feira e ela continuava a não tocar no assunto. Resolvi relembra-la, discretamente, de que eu ainda não tinha recebido meu troco. Ela falou um "ah, é" tão sem convicção, que vi que ela que não estava nem aí pra isso. Pedi mais duas vezes e um mês inteiro se passou.
Não preciso explicar que o problema não era o dinheiro em si e sim cara de pau da sujeita. Depois de um mês, estava na cara que meu troco virou comissão. Se ela não via nada demais em ficar com o meu dinheiro, certamente também não se importaria se as outras pessoas soubessem disso... Comecei a contar a história da garrafinha nos grupinhos de conversas. O que não era difícil, porque todo mundo vivia elogiando a garrafinha, querendo saber onde eu comprei, quanto custava - "custa quarenta e poucos, mas eu dei uma nota de cinquenta pra Fulana há mais de um mês e ela não me deu o troco". Contava a história tal como tinha acontecido, sem atribuir nenhum adjetivo ao que ela fez. Eu sabia que as próprias pessoas se encarregariam de classificar essa atitude e fariam com que a má fama chegasse ao ouvido dela.
Poucos dias depois, eu estava me trocando no banheiro, lotado (imagine, um banheiro comum para uma centena da bailarinas). Ela veio teatralmente até mim e falou de maneira alta e clara: "Aqui está o troco da sua garrafinha. Já faz tanto tempo e você deve estar pensando que eu queria ficar com o troco. Mas não é isso - eu sou muito distraída e esqueci. Você deveria ter me cobrado."
E cobrei.



