quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Paulocoelhando 2

Eu estava na fila - na porta do teatro - do espetáculo de fim de ano de uma das escolas que eu dancei. Alguns levavam flores, outros estava com filhos. Na minha frente havia um casal. Num certo momento a mulher instruiu o marido:
- Então já sabe: aconteça o que acontecer lá dentro, quando ela nos perguntar o que achamos você vai dizer que adorou, viu?

Como se não bastasse isso, uma mãe que chegou atrasada veio encarecidamente pedir para sentar no meu lugar. Era um teatro sufocante, todo preto, com cadeiras equilibradas sobre pequenas arquibancadas. Eu fiz questão de pegar um lugar perto da porta - para respirar um pouco - e ao lado do corredor - pra sair correndo com facilidade caso tudo despencasse. A mãe queria sentar justo no mesmo lugar porque iria fugir no início da apresentação. Ela só queria prestigiar a filha, que dançaria logo no começo. Depois ela ia embora e o pai ia buscá-la. Ela poderia dizer sem estar mentindo que tinha visto a apresentação da filha.

Eu me livrei de tudo isso quando comecei a dançar flamenco. Mesmo nas coreografias mais simples - que é o que ainda faço - é possível ser interessante, arrancar aplausos sinceros da platéia. É bom dançar algo que impacta sem esforço. É gostoso agradar de verdade, sem que as pessoas precisem programar elogios.