quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Inimiga

Ela era vizinha da minha vizinha, ou seja, morava duas casas pra lá. Foi com ela que eu descobri o que significava o termo Piranha, porque os meninos da vizinhança (meu irmão caçula entre eles) lhe dedicaram a música do Marcelo Nova. Eram crianças, acharam engraçado, desenharam piranhas com giz na rua. Aí meu irmão mais velho teve que contar pra gente o que era, e eles foram correndo apagar. Porque eram todos apaixonadinhos por ela e não sabiam direito como expressar. O jeito deles era ficarem provocando, dizerem de ela tinha voz esganiçada e estarem sempre brincando ali por perto. Na nossa região de casas, de meninas, tinha eu e as duas vizinhas. Então uma outra menina que não era parente e ainda por cima era loira, em Salvador, fazia sucesso. Ela tinha uma legião de meninas que ficavam atrás dela, como uma espécie de líder. Eu era de outra faixa etária, e isso é o mundo quando se é criança.

Só que como toda amizade baseada em liderança, às vezes ela brigava com as suas seguidoras. E uma delas era uma daquelas meninas que eu citei, que era minha vizinha. E ela ia conversar comigo. Por uma questão de idade, eu era muito amiga da irmã dela, a Juliana, numa relação onde as duas disputavam a liderança. Talvez se não fôssemos todas crianças, eu seria amiga dessa menina, a Marina, porque a considerava uma pessoa mais fácil. Então a Marina vinha conversar comigo e começava a se queixar da Silvia, a menina loira. Eu sabia que tudo aquilo era temporário e dizia que era assim mesmo, que daqui há pouco elas estavam amigas de novo. E invariavelmente a Marina me dizia:
- Você fica defendendo a Sílvia. Você não faz idéia das coisas que ela fala de você. Eu posso te contar.

E eu invariavelmente a impedia. Mais tarde elas voltavam a ser amigas, voltavam a brigar, a Marina voltava a me oferecer, eu voltava a me negar a ouvir. Chegou uma época que ela estava disposta a me contar de qualquer jeito, estivesse brigada ou não, e eu nunca deixei. Claro que eu tinha curiosidade. Mas, com razão, eu achava que aquilo não me faria nenhum bem. Eu sabia que perderia a espontaneidade de alguma coisa para sempre depois de saber. Eu era criança demais para entender que a Sílvia queria ser minha inimiga - e eu jamais lhe dei esse privilégio.