Eu dizia que o I Ching não gostava de mim, porque eu sempre recebia respostas atravessadas. Era como se ele fosse uma pessoa, e ele vivia me dando coices. Também, pudera: eu o procurava pra perguntar sempre a mesma coisa, de maneiras diferentes, numa tentativa desesperada de ler o que eu queria. Eu queria saber se meu namoro e um possível casamento com o Fulano dariam certo. E o I Ching me chamava de "A pequena moça casadoira" - a pequena moça casadoira é uma jovem que é ofertada a um inimigo ou chefe tribal para aplacar os ânimos. A situação dela é extremamente desfavorável. Olhando para trás, do tanto que meu namorado era maluco e brigávamos o tempo todo, me parece que o I Ching tinha toda razão.
Outro símbolo que caía com frequencia para mim era "O estrangeiro". Quando começava a jogar as moedas e fazer os tracinhos, debaixo para cima, esse era um dos poucos que eu já sabia antes de ler: o fogo em cima da montanha. O fogo não pode permanecer muito tempo numa montanha, seu destino é seguir outros caminhos. Assim era um estrangeiro, que compartilhava daquela situação temporariamente e depois iria embora. Enquanto permanecia, o estrangeiro tinha que ser prudente e amável com todos. Era como eu me sentia naquela época da minha vida, na casa da minha mãe. Eu estava sempre pisando em ovos, sempre tentando me antecipar ao humor instável dela. Mesmo assim era impossível agradá-la - estávamos sempre brigando e ela deixava claro que queria que eu fosse embora. Para consolar, eu lembrava de fogo sobre fogo, o Esplendor: Não fique triste. Seja como o sol ao meio dia.
Depois de muitos meses de espera, quando finalmente fui encomendar meu sapato de flamenco, recebi a notícia que o dia anterior ao meu e-mail o funcionário que fazia bordado tinha ido embora. Que eu pedisse sem bordado ou esperasse pelo menos um mês. Poderia passar o dia citando coisas que para os outros chegam com facilidade, todas as filas que deixam de andar quando eu chego. Lembrei da minha numerologia, que não tem o número sete (ou isso seria função do dois?) e faz com que tudo na vida da pessoa seja mais difícil, justamente para obrigá-la a desenvolver a paciência. Vejo os meus projetos crescerem a passo de tartaruga e penso nos muitos planetas que eu tenho em touro, que me tornam tão taurina quanto geminiana. Touro é turrão, e constrói o que tem de maneira lenta e segura. De fato, tudo à minha volta tem parecido muito lento. Não sei se estou num período de calmaria ou se minhas escolhas foram tão equivocadas que é só o que está aí. Racionalmente não vejo perspectivas. Penso em touro, penso em mim, e com isso tento acreditar que me encaminho a um lugar seguro.