É uma história antiga, da época que eu tentava tocar piano. Ele era um pianista principiante, mas com talento o suficiente pra participar de um concurso. Era aquele estudo de sempre, que ele tocava há mais de um ano. Ele o tocava bem, não errava as notas, tinha interpretação, enfim, o básico. Chegou o dia do concurso. Ele se colocou diante do piano, a banca na frente de ambos, uma pequena platéia com alguns amigos. Logo nas primeiras notas começou a sentir algo especial, como se uma onda o tivesse invadido. É difícil descrever em palavras. Ele sentiu que não tinha mais controle sobre os seus dedos, sobre o que estava acontecendo. As lágrimas escorriam grossas, as notas respiravam, ele nunca havia tocado de forma tão maravilhosa em toda a sua vida. Só que ele quis controlar a situação e seu esforço fez com que o fluxo parasse. No final da música ele havia voltado a tocar da maneira medíocre de sempre. Talvez por isso tenha ficado apenas com o segundo lugar.
Acho que os músicos não têm um termo específico para isso. No flamenco, chama-se duende. Ironicamente, o mais perto que estive do duende foi fazendo ballet. Era o começo da aula e estávamos fazendo pliés no centro da sala, uma coisa dificílima. Começou a tocar uma versão instrumental muito bonita de Casta Diva. A concentração e a suavidade dos nossos movimentos, aquela música. Era como se o tempo tivesse parado para nos ver, meu coração fica apertado só de lembrar.
O duende tem a ver com a técnica, porque não acontece quando a concentração se volta à execução do básico. Tem a ver com o tempo, porque é difícil dominar uma técnica no início. Para quem executa, é ser levado numa onda, e para o público é ser arrebatado sem entender direito o porquê. Mas é possível ter técnica, ter tempo, ter tudo, e não ter duende.
Eu preciso é de um duende para chamar de meu.
