sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Carlinhos Brown

Eu e Carlinhos Brown éramos amigos de infância. Tocávamos juntos, estávamos sempre juntos, compondo, tirando um som. Aí chegou a época do vestibular, eu estudei, passei em direito. Hoje trabalho todo engravatado, pego ônibus cheio e ele é Carlinhos Brown, mundialmente famoso. Tivesse vagabundeado ao lado dele ao invés de estudar e eu estaria rico também.

Quando eu ouvi essa história pela primeira vez, da boca de um amigo desse amigo, foi num tom de A cigarra e a formiga, onde a cigarra se deu bem. Eu era estudiosa e fazia tudo certo. Assim como esse cara, nem me passaria na cabeça não estudar, não me esforçar pra fazer o certo. A história simbolizou pra mim a injustiça desse país, que premia um vagabundo e deixa o estudioso pegando ônibus.

Eu cresci e deixei de ser aquela que faz tudo certo e arranja emprego. Larguei o garantido e fui ser artista. Aí passei a ver nisso um símbolo, uma resposta a meus anseios de pessoa sonhadora. Carlinhos Brown era um que tinha ouvido a voz do coração e não se deixou corromper pelo que se esperava dele. O amigo tinha desistido do sonho, ele não. Escolhas medíocres, resultados medíocres. Carlinhos apostou alto e ganhou. Eu também estava apostando alto e acreditava que o universo também apoiaria minha decisão.

Agora já deixei de ser a jovem com um futuro brilhante pela frente. Perdi o bonde do emprego sério, joguei fora minhas oportunidades de ter uma carreira sólida. Com a minha idade, já deveria ser alguma coisa e não sou. Agora penso nessa história e acho que Carlinhos Brown era uma pessoa monotemática. Ele era aquilo, sabia fazer só aquilo, não era adaptável o bastante para prestar um vestibular e virar advogado. Ele não podia e não conseguia ter um emprego de gente comum. Isso poderia torná-lo rico ou matá-lo de fome; ele era o que era. Algumas pessoas - eu, Carlinhos Brown - avançam sem se desviar. E sem saber para onde vão.