Comecei a cortar o meu cabelo curto com quinze anos. Ele passou por diversas fases, como atestam as minhas fotos, mas se for perguntar pras pessoas quem eu sou, como é que eu sou, todos lembram de mim como uma morena de cabelo curto. Tive todos os cortes curtos imagináveis, sempre atualizada. Agora estou há praticamente um ano deixando o cabelo crescer. Minha motivação é o flamenco. Se for parar pra pensar, pra mim deixar o cabelo crescer é algo radical, porque trocar de um cabelo curto para o outro era a minha regra. Só que me olho no espelho com o cabelo tão lisinho - o cabelo dos sonhos dos outros - e me acho tão comunzinha. Nunca senti tanta vontade de ter tatuagem, de me vestir da maneira estilosa, de fazer alguma coisa. Meu cabelo não chega nem no ombro, e cabelo não diz tanto assim a respeito de alguém - mas como explicar essa sensação de que me tornei mais uma na multidão? Por debaixo daqueles cortes diferentes havia uma vontade de ser diferente. E a certeza de que sou igual.