terça-feira, 30 de agosto de 2011

Especial

Numa dessas amizades monotemáticas, tive uma que consistia em ouvir as frustrações do final de semana de uma Loira. Defino-a pelo cabelo porque ela tinha se esforçado muito para ficar assim. De aniversário, ao invés de uma festa fabulosa, ela havia pedido para os seus pais investirem esse dinheiro no cabelo dela, que era comprido, cacheado e suponho que castanho escuro. Ela chegou no salão de manhã e passou lá o dia inteiro. Parece que a escova definitiva com o cabelo tingido exige muito cuidado, não sei. Além do cabelo perfeito, ela passava horas na esteira, todos os dias, pra tentar se livrar dos últimos dois quilos que a impediam de ter o corpo que ela queria. Quilos que, devo dizer, ninguém mais via. Ela já era muito bonita. Sua carreira perfeita - era jovem, ganhava bem e tinha convites para as melhores casas noturnas da cidade - a permitia sair durante todos os fins de semana. Eu entro na história às segundas, quando ela contava que tinha conhecido alguém e haviam trocado telefones. Poucas segundas depois, ele já tinha se mostrado um mentiroso, que ao invés de querer algo sério a tratava como as outras e sumia. Todo fim de semana - ela havia aprendido a investir em muitos - ela conhecia homens assim.

Ela queria muito, queria desesperadamente ter um namorado. Entre um partido perfeito e outro, o que ela mais desejava era se estabelecer com um. Ela não queria ser mais uma pra esses homens, ela queria ser a pessoa especial de alguém. Nada a afrontava mais do que ver mulheres gordinhas, feiosas, mal vestidas, inferiores a ela em todos os aspectos mas namorando. Por que todos conseguiam e ela não? Levantaram a hipótese de uma macumba. Eu apenas intuía o motivo, mas não tinha clareza. A verdade ficou clara no dia que nos despedimos, depois de mais de um ano de convívio: ela foi embora sem me dar um abraço ou ao menos fingir que queria meu telefone. Minha função havia acabado. Aqueles homens apenas correspondiam ao que ela mesma fazia; você não pode querer que os outros sintam por você o que você também não sente por eles.