Minha cunhada levou sete anos pra casar e se separou com três anos de casada. Eu e o Luiz casamos em pouco mais de um ano - e teria sido em menos de um ano se a casa não tivesse nos atrasado. Por causa disso, fomos acusados pela família dele de casarmos impulsivamente. Depois de ouvir várias histórias, nem considero o meu casamento um dos mais rápidos. Conheço casos de pessoas que casaram em quatro meses. Seriamos todos loucos ou quando o coração tem certeza não há porque enrolar? De todas as histórias de rapidez, acho que nenhuma supera esta:
Recebemos no fim daquele ano um surpreendente telefonema, em que Luís Fernando nos comunicava que havia contratado casamento e que oportunamente nos daria pormenores a respeito da noiva e do acontecimento. Mafalda e eu nos entreolhamos e tivemos o mesmo pensamento. Quem seria a eleita? Homem um tanto tímido e, como o pai, um pouco inclinado à inércia e ao não-vale-a-pena, não teria ele se deixado levar pela simples preguiça de dizer não a alguém?Nosso temores, porém, eram injustificados. Viemos a saber mais tarde que nem a moça suspeitava das intenções daquele bicho concha. Chamava-se Lúcia Helena. Trabalhavam ambos no mesmo escritório. Um dia nosso filho chamou-a (contou-nos a nora mais tarde) e ela imaginou que fosse para passar-lhe um pito por causa de algum trabalho mal feito. Luís Fernando disse-lhe apenas: "Vamos sair". Ganharam a rua, caminharam algumas quadras em silêncio, fizeram alto à frente da vitrina de uma casa de jóias e, apontando para uma coleção de alianças, o rapaz perguntou à colega: "Estás vendo aquele anel ali? Te dou cinco minutos para resolver. Queres ou não casar comigo?" Lúcia aproveitou apenas quatro ou cinco segundos, dos trezentos que Luís Fernando lhe concedera, e respondeu: "Quero". Deram-se os braços, entraram num botequim e beberam uma Coca-cola para comemorar o acontecimento.Solo de Clarineta II p.58-59/ Érico Veríssimo
Foi assim que Lúcia se tornou esposa de Luís Fernando Veríssimo, há 47 anos. Diga a verdade: você ficou mais fã dele depois dessa.
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Ao contrário das boas recomendações que recebi, não gostei muito de Solo de Clarineta. Achei o livro bastante irregular, e que ele merecia apenas um volume. Érico Veríssimo leva quase duzentas páginas pra chegar na idade adulta, tamanho seu entusiasmo pela própria infância. E termina o livro com infindáveis descrições das suas viagens, que meu lado invejoso não suportou. Além da descrição de lugares maravilhosos que talvez eu nunca conheça, ele ainda era saudado, aplaudido, laureado e falava com os maiores escritores da sua época o tempo todo. Pouca coisa, né? Não fui capaz de sentir muita empatia por isso. Com o que realmente me identifiquei foi o período difícil, a decadência da família Veríssimo. Depois de uma infância cercada de música clássica, autores franceses, jantares e brilhantes perspectivas, ele entra na idade adulta com seus sonhos estraçalhados porque seu pai dilapidou todo patrimônio da família. Aí o rapaz tímido, talentoso, culto e poliglota, que gostava e merecia do melhor, se viu varrendo chão de armazém. Quem nunca se viu nessa situação, com seus talentos desperdiçados num lugar medíocre? Alguns se sentem assim durante uma fase, outros se sentem assim a vida inteira.