domingo, 29 de maio de 2011

Iniciada

Por motivos que não lembro, estavamos lendo o currículo de uma mística. Nele, uma grande lista de iniciações - xamanismo, shiatsu, astrologia, fraternidade branca e tudo mais que existe. Meu irmão, sagaz como só ele, comentou: "Vai ser ruim assim, né? Iniciou tantas vezes, está sempre repetindo de ano?" Ela sem dúvida nunca havia pensado nisso, e se orgulhava em entrar em tudo quanto é coisa que tivesse um ritual, um título, que prometesse uma transformação. Como se fazer tudo isso a tornasse diferente dos outros. A quantidade de cursos depunha justamente o contrário, que é possível que ela nunca tenha aprendido nada..

Acho bonita a busca por uma mudança. Mas mesmo quando alguém deseja mudar, elas não são programaveis, não aparecem como a certeza da conclusão de um curso. Conheço quem perdeu ente querido e cultiva as mesmas teimosias e crenças de sempre. A dor e a velhice, por si só, nem sempre mudam as pessoas. Nem todos querem mudar, nem todos vêem motivos para isso, nem todas as partes são negociáveis. Já em outros casos, vidas podem ser transformadas das maneiras mais simples, até mesmo estúpidas. Há quem se sinta mudado depois de ter visto um filme. Lembro de uma história Zen, de um mestre que alcançou a iluminação no mercado. Foi quando o vendedor gritou "tudo aqui é da melhor qualidade". Pras principais mudanças ninguém oferecerá um certificado. Algumas vezes, a própria pessoa nem se dá conta do que aconteceu com ela; anos mais tarde ela vai olhar para trás e entender que tudo começou ali. Mas quando o que está dentro muda, o de fora muda também.

Você pode entender isso de uma maneira mística, com tantas metáforas bonitas que existem sobre o assunto - flores que desabrocham, templos que se abrem, o som que surge do silêncio. Você pode entender de uma maneira sistêmica, que diz: estamos sempre em relação com o mundo, que é formado por vários elementos e é a soma deles. Quando um elemento muda, isso repercute no todo, que é obrigado a buscar uma nova harmonia. Místico ou não, o novo costuma ser belo...