terça-feira, 29 de março de 2011

Separação

As mulheres esperaram muito tempo pelo direito de se divorciarem. Pelo direito legal, pelo reconhecimento de que elas podem não gostar de estar naquele casamento e irem - sem terem que provar para os outros que estavam sofrendo, sem nem ao menos sofrerem danos visíveis pra justificar essa saída. Minha mãe e minhas tias usaram amplamente esse direito, para desgosto da minha vó que viu filha após filha voltar sem marido e com filhos. E como elas aprenderam, os filhos delas presenciaram que a separação empobrece os conjuges. Especialmente quando a mulher não trabalho, o que hoje ficou menos comum. Quando o casal não tem muito patrimônio, o padrão pode baixar de maneira irreversível. A mulher separada geralmente mora com os filhos, o que cria mais uma dificuldade para casar de novo. Lembro que eu li uma entrevista com Zilda Arns, em que lhe perguntaram se ela não quis se casar depois que o marido morreu. Acho que esperavam uma resposta santificada, de que ela fez da Pastoral da Criança e do amor ao próximo o seu casamento. Mas ela disse que não foi propriamente uma escolha, e sim é que é difícil se casar de novo quando se tem seis filhos.

Tendo em vista tudo isso, na minha geração, conheço quem prefira não se separar. Digo prefira porque o motivo já surgiu. Não que seja tudo bem que ele teve outra, outras. Não que ela acredite quando ele diz que não vai se repetir, não que ele se proponha a mudar. Elas não se separam porque separar dá muito trabalho. Separar empobrece. Ironicamente, as que mais temem a pobreza são as de maior patrimônio. Não estou falando de aluguel atrasado. Separar vai obrigar a comprar na loja popular ao invés de comprar as roupas lindas das grifes preferidas. Separar vai obrigar a fazer contas, saber o gasto mensal da gasolina, calcular imposto de renda e outras coisas chatas que os maridos geralmente assumem. E, principalmente, separar obrigará a mulher a cair novamente no "mercado", e está cada vez mais difícil arranjar um homem. Quando uma mulher se separa, pode ser que ela nunca mais gaste como antes, ou que nunca mais se case. Ou não. Mas é tão difícil e incerto que elas preferem ficar, não arriscar.

Eu não acho errado, apenas acho triste. Como quem desiste antes de lutar. Ou confia tão pouco nas mudanças - de ares, de pessoas, de perspectivas, de valores - que se conforma. Entenderia ficar por amor, ou até mesmo por vingança; mas por isso?