Da minha casa até o meu ponto de ônibus dá bem mais do que cinco minutos, andando rápido. Boa parte desse trajeto é de subida e eu passo por quatro construções civis. Mais ou menos nos mesmos horários e dias da semana, eu enfrento heróicamente a subida logo na frente da minha casa, porque não tem outro jeito. Um dia desses, fazia calor e eu estava subindo, de bolsa e segurando os livros da biblioteca. Parou um carro e a motorista me ofereceu carona. Eu aceitei. Enquanto dava a volta por trás do carro e percebia que ele tinha adesivos família - uma casal, dois filhos, um cachorro - não pude deixar de pensar "Eu vou morrer. Meu corpo aparecerá numa vala e ninguém vai ter pistas do assassino". Não morri e nem ela era má pessoa. Ela mora quase na esquina de casa e diz que me vê passar e ficava com dó de me ver subir naquele sol. Conversamos e ela ficou de me oferecer carona de novo se nossos horários coincidirem.
Estava ensolarado de novo. Passei na frente da casa da vizinha e percebi que o carro dela ainda estava na garagem. Enfrentei bravamente a subida com toda minha atenção voltada a um possível carro passando à direita pra me oferecer carona. Parou um outro carro e lamentei porque era outro modelo, menor. Dentro dele uma senhora me ofereceu carona, desta vez até o ponto de ônibus. Acabou me deixando no terminal. Ela me disse que esses dias ofereceu carona pra uma outra moça, no sol, mas que a moça ficou desconfiada e não aceitou. Eu já despudorei um pouco; acho que toda minha vizinhança me olha com pena enquanto subo.
Se meu corpo aparecer numa vala, vocês já sabem o motivo.