Era madrugada de sexta ou sábado e eu estava no chat do UOL. Eram os tempos da internet discada, então esse era o único período do dia e dia da semana em que eu podia entrar. E sempre que eu entrava, sempre que alguma conversa ficava boa, sempre que conhecia um homem interessante, ele invariavelmente morava em São Paulo. A coisa era de tal maneira que eu já tinha assumido que a vida era assim e entrava direto nas salas de São Paulo.
Qual não foi a minha surpresa, e das totalmente agradáveis, quando conheci um sujeito interessante e ele me disse que era de Curitiba. Rimos, conversamos sobre livros, sobre músicas, sobre faculdade. Tudo batia. Lá pelas 3h da manhã, com a conversa a todo vapor e os pulsos doendo, resolvemos ligar um para o outro. E assim passamos mais de uma hora no telefone, numa conversa incrível e sussurrada que não se esgotava. Aí decidimos desligar o telefone, dormir algumas horas e nos encontrarmos em frente à Rua 24h, naquele mesmo dia. Como vou te reconhecer? "Eu tenho 1,80, sou loiro, olhos azuis..."
U-a-u. Confesso que sempre tive uma queda por morenos baixinhos (da minha altura, pra ser mais específica), mas mesmo assim fiquei impressionada com a descrição. Só não me consumi em expectativas porque não tive tempo. No curto período que tive para pensar antes de conhecê-lo, eu já estava concluindo que ele tinha tudo para ser o amor da minha vida. Um namorado, no mínimo. A não ser que ele tivesse mentido, que ele fosse repulsivo, que ele tivesse algum defeito gravíssimo. Ou que eu fosse repulsiva pra ele. Caso o problema fosse com ele, eu era idealista o suficiente pra passar por cima de uma atração física pequena, se preciso fosse. Quando atravessei a rua e vi aquele loiro de olhos azuis, alto e de casaco preto, achei que tinha ganhado na loteria.
Essa impressão durou apenas os segundos necessários para ele me reconhecer e vir me cumprimentar. O problema é que ele era uma moça. Não que ele tivesse me enganado, e sim que ele ainda não sabia. Ele andava como gay, falava como gay, era sensível como um amigo gay; nem precisava ter um
gaydar bom pra perceber. Acredito que isso desconhecia isso porque era de uma família religiosa (só descobri pessoalmente), frequentava igreja, aqueles tabus todos. Quando eu disse que estava ouvindo muito
Nightswimming, ele me perguntou: você tem um mês especial? Gay.
Conversamos a tarde inteira e no dia seguinte ele me mandou um longo e-mail, dizendo que adorou me conhecer. Respondi algo meio curto e nunca mais entrei em contato. Ele não merecia meu sumiço, mas foi mais forte do que eu.