Adorei o
meme que a Deise me mandou e ia fazer minha lista de qualquer jeito. Porque falar de Roberto Carlos é falar de uma memória emotiva tão legal, tão particular e ao mesmo tempo tão comum. Assim como ela, eu brinquei de achar o Roberto brega porque minha mãe ouvia os discos e ele tinha foto com peninha na orelha. Depois ele começou a falar de gente-desfavorecida-pelos-padrões-opressivos-da-estética e eu achei fim de carreira. Mas estava errada. Porque as músicas dele já garantiram seu lugar no panteão dos grandes da música brasileira há muito tempo. Vai aí meu top five do Robertão, o Rei.
5- As BaleiasDevo ser a única pessoa que ficou marcada por essa música. Eu era criança e achava incompreensivel matarem baleias. Via aquelas cenas do mar todo vermelho, chorei torcendo pela
Orca, a Baleia Assassina, enfim, fiquei sinceramente preocupada com elas. E como criança não tem muita noção das coisas, era como se só tivesse meia dúzia de baleias no mundo e elas fossem acabar amanhã. E o Roberto só reforçava essa impressão ao cantar
Seus netos vão lhe perguntar em poucos anos
Pelas baleias que cruzavam os oceanos
Que eles viram em velhos livros
Ou em filmes nos arquivos
Em programas vespertinos de televisão
O resto da música pra mim é um verdadeiro videoclipe. Quando ouço a música, vejo claramente um vejo enrugado, com olhar distante, a cena do seu passado com a baleia se debatendo ao ser morta pelo arpão, os netos aos pés dele sem saber que seu avô os privou das baleias...
4- Fera FeridaEmbora a minha versão preferida seja a da
Bethânia...
Acabei com tudo
Escapei com vida
Tive as roupas e sonhos
Rasgados na minha saída
O que dizer? É a versão que fala dos momentos difíceis que vivi, das lutas que comprei sozinha, do abrigo que eu não sentia que tinha. Durante muitos anos eu me senti uma fera ferida, vivendo graças à minha força e a vontade de sobreviver. Solidões incompartilháveis, dores morais que o tempo apaga a causa mas não a cicatriz. Sempre achei essa música oposta à
Lady Laura, que falava de um lugar de paz que eu nunca senti que tive. É uma música que fala de dor e da força, de feridas que sangram mas que não impedem de seguir em frente. Adoro; não tenho simpatia com a ideia de fazer da dor uma desculpa.
3 - Debaixo dos caracóis dos seus cabelosQuando eu vi em algum lugar que essa música foi composta pelo Roberto em homenagem ao Caetano, quando ele estava no exílio, até pedi explicações para a minha mãe. Me senti meio traída, porque o sentido da música mudou totalmente para mim. Ela deixou de ser uma música de amor romantico para ser...
Não sei se isso é só comigo; tenho feito grandes amizades intensas com pessoas que estão de partida, mesmo que elas ainda não saibam. Quando conheci a Fábia, poucas semanas depois ela foi convidada pra trabalhar em Jaraguá do Sul. A única coisa que eu pensei na hora foi "eu sabia". Foi assim com a Camila, que passou quase dois anos fazendo faculdade comigo e só fomos conversar quando ela já estava com tudo pronto pra ir embora. Iria visitar a família em Moçambique e se mudar direto para Floripa. Foi tudo tão rápido, tão importante, que eu gravei um CD pra ela, com a Amelie Poulain na capa (por alguma associação estranha ela acha que eu lembro a personagem) e a primeira música do CD dizia
Um dia a areia branca
Teus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar
E o resto da música era todinha a Camila. Um mundo distante, a família, a saudade, ser um estrangeiro. Hoje não sei como um dia a ouvi de outra forma.
2- EmoçõesEssa foi na fase posterior à Fera Ferida. Depois que eu curti um monte as minhas dores, andei muito de preto, me senti a pessoa mais traumatizada da terra, fiz terapia, senti raiva, senti ódio... Um dia a luz do sol entrou e eu me dei conta de que
Sei tudo o que amor
É capaz de me dar
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar
Se chorei ou se sorri
O importante é que emoções eu senti
Percebi que mesmo as coisas não são completamente ruins ou boas. Que a experiência é infinitamente melhor do que levar uma vida previsível e vazia. Algumas coisas se tornaram passado, histórias para contar. E eu estava aprendendo a viver com o meu. Vi que é essa transitoriedade dos fatos que torna tudo tão importante, tão bonito e doloroso ao mesmo tempo. Ouvir essa música e ser tocada por ela só me aconteceu na maturidade. Antes eu enfrentava a vida; um dia eu aprendi a amá-la.
1- Como é grande o meu amor por você
Estavamos namorando há menos de 1 mês e era dia dos namorados. O Luiz reservou um dos melhores restaurantes da cidade; afinal, aquela noite especial depois se transformaria numa dia especial, porque meu aniversário é logo depois do dia dos namorados. Eu, que até conhecer o Luiz me arrumava em dez minutos, fiz uma produção caprichada com direito a vestido novo. O restaurante estava cheio, decorado de forma romântica. Um cantor passava de mesa em mesa com um violão, atendendo aos pedidos dos clientes. Ao se aproximar da nossa mesa, estavamos de mãos dadas, nos olhando. Ele começou a cantar:
Eu tenho tanto pra te falar
Mas com palavras, não sei dizer
Como é grande o meu amor
Por você
Sorrimos felizes e mortos de vergonha. Ninguém havia dito eu te amo ainda, não éramos loucos pra fazer uma declaração dessas tão rápido e assustar o outro. Mas já estava na cara e no coração, para sempre. Tanto que depois o cantor nos entregou o cartão dele, avisando que ele cantava em casamentos também.
***
Teria muita curiosidade em ler um top five da
Anne, que tem um gosto parecido com o meu, da fã de MPB
Regina, da resistente
Quéroul, da eclética
Ana e o erudito da
PQP Milton. Será que eu descubro?