Eu li uma entrevista de um artista que ficou indignado quando uma crítica famosa disse que Van Gogh é Van Gogh por causa das cartas. Mas que aí ele leu, se encantou, e passou a concordar com ela. Aí eu me senti obrigada a ler. Eu era meio indiferente ao trabalho de Van Gogh, que conheço desde sempre, assim como a Mona Lisa. A crítica tinha razão, sem que isso queria dizer que Van Gogh é ruim ou mera publicidade. É que depois de ler as cartas, a gente tem vontade de encontrar com ele e chorar abraçados. Ele não é um desses filhos da mãe que começam uma atividade e ela lhe sai natural, com um talento luminoso que ninguém duvida. Acho que a maioria dos artistas sente sua aptidão como um amor não correspondido, que somos muito mais apreciadores sensíveis do que realmente talentosos (como disse a Moleskine, aqui). Ele, como nós, sente que
E as vezes nos falta o desejo de nos relançarmos em cheio na arte e de nos estabelecermos para fazê-lo. Sabemos que somos cavalos de carga, e sabemos que será novamente a mesma carga que teremos que levar. E então perdemos a vontade, e preferíamos viver numa campina ao sol, um rio, a companhia de outros cavalos também livres, e o ato de procriação.E talvez, no fundo, a doença venha um pouco disto, não me surpreenderia. Não mais nos revoltamos contra as coisas e também não nos resignamos, ficamos doentes e isto nunca passará, e precisamente isto nós não conseguimos remediar.Não sei quem chamou este estado de: estar atingido pela morte e pela imortalidade. A carga que arrastamos deve ser útil a pessoas que não conhecemos. E aí está, se acreditamos numa arte nova, nos artistas do futuro, nossos pressentimentos não estão errados. (....) E nós que, pelo quanto sou levado a crer, não estamos de modo algum perto de morrer, sentimos contudo que a coisa é maior que nós, e mais longa do que nossa vida.
Cartas a Theo, p. 233
Ou, de maneira menos poética:
Frequentemente me aflige que a pintura seja como uma amante ruim que tivéssemos, que gasta, continua gastando, e nunca está satisfeita, e me ocorre dizer que, se por acaso de tempos em tempos há um estudo razoável, seria muito mais barato compra-lo de outro.
Eu lembrei desse trecho quando o Ulisses falou que ele não é um bom bailarino. Mesmo assim, ele dança há quase dez anos. Eu não tenho condições de falar "deixe de modéstia, você é ótimo", porque nunca vi, não sei. E o fato dele dançar há tanto tempo também não garante que ele seja talentoso, apenas que é um apaixonado. Mas ele, eu e tantos outros persistimos só por isso. Há dias em que nos sentimos expressivos, elegantes, maravilhosos. Mas essa crença é facilmente desmentida quando erramos, alguém ao lado faz com facilidade o que nos parece difícil, surge um novo talento, vemos outros ou a nós mesmos num video. Caímos então num fosso, no fosso do medo da falta de talento, e lamentamos esse amor que nos suga a paz de espírito. Que seria muito mais fácil simplesmente não ter começado, muito mais lógico dar as costas a tudo isso e seguir nossa vida, sermos meros expectadores. Mas nós não embora. Nunca, nunca, nunca.
Gosto ampla e irrestritamente deste livro. Lê-lo foi uma espécie de espelho, só que daqueles de parque, sabe, me fazendo distorcida e mais real. Gostei ainda mais da sua contextualização às palavras de Van Gogh, deram-lhe materialidade.É um amor, é certo, e, como tal, há grandes gozos e inominável dor. Beijo
ResponderExcluirAs cartas de Van Gogh a Teo é uma das obras mais tocantes. Talvez te interesse o diário de Nijinski, também.
ResponderExcluirAin, não li ainda. Preciso. Meus favoritos são Van Gogh, Cezanne e Vermeer. Ninguém perguntou mas eu quis contar. ;)
ResponderExcluirObrigado.
ResponderExcluirQue bonito! Em que livro a gnt pode ler essas cartas?
ResponderExcluirDÃ. Agora eu vi. HAHAHA
ResponderExcluirMais um livro para lista dos que eu deveria já ter lido.
ResponderExcluirEu nunca li as cartas, mais pulei aqui de indignação. :) Perdão, mas adoro o Van Gogh da mesma forma que acho o da Vinci insípido. Entendo muito pouco de artes plásticas, e isso realmente não me incomoda. Minha fruição é impressionista, sem trocadilhos. Viajei até a cidadezinha onde ele está enterrado, em um cemitério no alto de uma colina coberta de trigo. Ao lado do irmão,nos dois túmulos mais simples do cemitério. Minha filhinha, então com dois anos, ficou ali, catando umas florzinhas baldias. Fiquei emocionadíssima. Porque adoro a obra dele. Porque ele não vendeu um puto quadro em vida. Porque ele morreu miserável e triste. Porque o mundo é uma merda às vezes. E porque eu não aprendo a regra dos "porquês". :)
ResponderExcluirLeila
O artista que eu citei também pulou de indignação...
ResponderExcluirMuita carga e muito pesada.
ResponderExcluir