segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Professoras de dança

Posso dizer sem exagero que tive aulas de ballet com as melhores professoras de Curitiba. Cheguei na primeira justamente por isso, porque no meio o trabalho da Cíntia é conhecido e respeitado por todos. Ela já foi primeira bailarina e hoje tem sua própria escola e grupo de contemporâneo. A família toda cuida da escola, e são todos fofos. A escola tem o diferencial de não dar aulas para crianças. Passei por outros professores dentro da mesma escola antes. Quando finalmente virei aluna da Cíntia, só sabia o básico. Fiquei intimidada e fascinada por aquela turma com bailarinos de diversos níveis e objetivos, porque até para os avançados era uma aula aproveitável. Tinha gente que dançou a vida inteira e parou, bailarinos na ativa, professores de ballet, loucos de pedra que simplesmente amavam o ballet como eu. Ela era capaz de explicar infinitas vezes o mesmo movimento, como se fosse a primeira vez. Dizia que levou anos pra adquirir a "generosidade necessária" pra dar aula para o básico. Sabe o que é admirar tanto uma pessoa a ponto de não saber o que falar quando ela está perto de você? Era assim que eu me sentia com a Cíntia.

Não gostei quando ela deixou de dar aula no meu horário e colocou a Nina no seu lugar, por mais que todos garantissem que era outra excelente professora. E era mesmo. Era uma bailarina carioca capaz de ficar no equilíbrio a qualquer momento, partindo de qualquer ponto. Ela fazia as transições mais difíceis com toda naturalidade. E como dançava! Vi o Quebra Nozes no balcão, não distinguia ninguém, mas quando a Nina entrou eu sabia que era ela, o palco ficou tomado. Não é à toa que esse foi o último grande espetáculo que ela dançou antes de ir pra Alemanha. Ela era ousada e nos cobrava ousadia o tempo todo - "Esse negócio de pé esticado vem com o tempo. O importante é aqui em cima, o que você consegue passar pro público". Lembro de uma aula especialmente complicada, exaustiva, saímos pingando. Ela pediu uns saltos e umas sequencias que eu fiz do jeito que deu, ou seja, igual a uma galinha fugitiva. Na saída ela me falou - "Caminhantezinha (ela sempre me tratou no diminutivo, apesar de ser mais nova que eu), desculpe a aula puxada. É que só estavam vocês, que são roquenrou, e eu me entusiasmei". Guardei esse elogio pra vida inteira.

Aí eu fui parar na escola da minha última professora de ballet, também dona de escola, conceituada e etc. Eu a conhecia desde a época da Cíntia, fizemos algumas aulas juntas e ela me deu algumas aulas. A escola da Professorona tinha uma estrutura profissional, com aulas diárias, ensaios, exercícios de solo, pilates, alongamento - tudo voltado para o ballet. Tinha outras duas alunas adultas, mas eu era a única que me dispunha a fazer tudo isso, que vivia no grupo. O clima era diferente - no lugar das aulas dançadas, correção dos movimentos; ao invés de conselhos, disciplina; a expressividade ficava jogada no canto, porque o importante era arrumar tudo antes. Ela gritava com aquelas crianças de um jeito que eu, com trinta anos na cara, teria voltado pra casa chorando. Minha técnica melhorou muito e rapidamente. Eu tentava ver na Professorona a pessoa legal que alguns diziam, mas comigo ela foi apenas correta. Levei as aulas dela e da Nina juntas o quanto pude, porque a primeira era obrigação e a segunda prazer. Era uma escola que visava formar bailarinos para o futuro, então tudo era muito sério, muito duro. Por necessidade, por contingência. Pelo menos era isso que eu pensava.

Agora eu sou aluna da Cris. Não é mais ballet, mas ela também é dona da escola e dá aula para todas as idades. Ela formou praticamente sozinha sua companhia, que é conhecida e respeitada. Pra conseguir isso, ela nunca elevou a voz, é adorada pelas crianças, faz com que todos se sintam em casa. A Cris é uma das pessoas mais generosas que eu conheço. O que a Professorona consegue com terrorismo, a Cris consegue com amizade e afeto. É nas pequenas coisas que a gente mostra quem é; não era a necessidade que tornava a Professorona uma pessoa dura.

5 pitacos:

  1. Eu sempre acreditei na gentileza e não na arrogância e grosseria. Talvez seja porque trabalho com gente grossa e tenho certeza de que eu trabalharia com muito mais prazer se não tivesse que levar coice o tempo inteiro...
    Sou a favor da obediência por respeito e não por medo.
    Belo texto! :)

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  2. Postei um comentário agora e dei enter antes de me identificar... Será que foi?
    (falando sobre gentileza, grosseria...)

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  3. Será que consigo adivinhar com que letra começa o nome da Professorona? Não seria um D, seria? Se sim, saiba que sofri horrores nas mãos dela. Larguei tudo, abandonei, mas ainda amo a dança, desde sempre.

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  4. Não é D, Cris. Também tive uma dessas, na minha infância. Por sorte, esqueço facilmente o nome das pessoas de quem não gosto. A Professorona é mais nova do que a gente.

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  5. Só sei dizer que a D me fez pastar nas mãos dela. Hitler de saias, manja? Ódio mortal até hj.

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