sábado, 25 de setembro de 2010

Pêlos na cara e autores no coração

Tenho dó quando vejo uma mulher com buço na rua. Tem várias coisas que as pessoas acham defeito e não acho que seja - acho o conceito de estar bem vestido relativo; assim como acho que estar acima do "peso ideal" pode significar apenas que a pessoa acha que uma vida de restrições alimentares não paga o preço. Mas quando vejo uma mulher de buço não consigo acreditar em nenhum ideologia, nenhuma escolha consciente por detrás. Ou será que existe um movimento feminista contra a depilação do rosto e eu não estou sabendo? Acho que elas só não tiram porque dói, porque tem que fazer sempre ou porque não conhecem um método bom. Uma coisa tão simples. Aí é aquele estrago: a gente reparando nas ruas, os homens olhando com mais nojo do que fígado mal passado.

***

O Charlles colocou um trecho do Said no blog dele e Said me faz lembrar de uma amiga minha, uma moçambicana. Ela era fã do Said, tinha todos os livros dele e ainda por cima o achava um tesão. É uma maldade que publiquem livros que não deixam a gente ver a cara dos autores. Quando eles nos agradam, queremos ver a cara e saber da vida deles, queremos saber como reagiriamos num hipotético encontro - se tomariamos chá ou vinho; se dariamos um abraço ou tudo o que eles pedissem. Quem não ficou apaixonadinha pelo fumante Camus, sussurrando crises existenciais em francês no nosso ouvido? Ou quem não se perguntou se sussurros em francês seriam o suficiente para tornar Sartre pegável? Só aceitei Bourdieu como pessoa-humana quando conheci a trajetória dele. Tanta genialidade numa pessoa só me incomodava. Com Elias nunca foi assim, foi uma simpatia imediata e protetora. Nunca me canso de ler o que ele escreve, de saber dele, de torcer por ele mesmo já morto. Quase chorei junto quando ele falou do último encontro com os pais, que se recusaram a fugir da Alemanha e morreram nos campos de concentração. Me identifico com os anos de trabalho sem reconhecimento e desejo intimamente uma velhice como a dele. E fico irritada quando o comparam (pra pior) com Bourdieu.

Quando comecei a me encantar com Foucault, me senti meio culpada. Gostei do lado soltinho dele nas entrevistas. Mas depois de tantos anos de amor e fidelidade ao Elias, será que... Aí lembrei que Foucault não é chegado e relaxei.

7 pitacos:

  1. Sinceramente, eu acho que o pior é quando elas inventam de usar lâminas e fica aquela cara de barba por fazer...

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  2. Juro ter pensado no Said do Lost. E sim, eu fui apaixonada pelo Camus. Além disso, ontem fiz o buço.

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  3. nao entendo tambem, se tivesse buço faria todo dia! a vaidade nessas horas é obrigatoria!

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  4. Pô, caminhante, como é bom ler um troço destes, mulher. Então tu és fã do Said? Que texto bonito esse seu (estraga um pouco a gente se lançar de imediato a elogios, e elogio emburrece e torna a pessoa elogiada mais auto-vigiada, mas não tenho como fugir, agora, a ISSO. Permita, pois).

    Said não só é um dos meus autores preferidos, que tenho e li tudo dele, como ele se tornou um desses diretrizes de caráter a ser seguido. Sua maior contribuição foi a prédiga genial de ter dito que o intelectual tem o direito de falar a verdade ao poder. Baseado em seu conceito de "intelectual" que eu almejo a ser um, sem medo ou auto-condenações, pois o intelectual saidiano é por natureza um ser que pensa, um ser que não segue, um ser independente, íntegro e corajoso. Também, do alto da minha macheza ostensiva e brutal, confesso que o achava um cara charmosíssimo, um cara que não se pode desviar o olhar de seu rosto e de seus gestos sem pensar: pô, que cara bonito.

    A sua autobiografia, Fora do Lugar, que escreveu sentindo as dores fatais da leucemia, é um dos livros mais gratificantes e belos que já li. Seu modo de escrever é elegante, abrangente, poético. Um cara que já faz falta saber o que pensaria das várias idiotices que sempre proliferam por esse mundo de homens laborens que se negam a pensar.

    Diferente de Foulcaut, que também admiro mas com reservas. Um escritor deve ser, antes de mais nada, um HOMEM, e o fato de F. ter testado o HIV que lhe contaminara nos vários amantes que teve, de livre consciência, é algo que não me agrada.

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  5. Existe sim um movimento feminista contra a depilação. Veja aqui: http://mulher.terra.com.br/noticias/0,,OI4658843-EI16610,00-Movimento+feminista+pro+excesso+de+pelos+chega+ao+Brasil.html

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  6. Só pode ser uma coisa, a mulher tem, sabe que tem, mas vai deixando porque pensa que a natureza é sábia, todo mundo é míope, e ninguém vai ver.

    Muito bem observado, Caminhante!

    Olha, minhas saias tulipa encontrei na C&A. São muito básicas, cintura alta, com um cintinho também no mesmo tecido (preta e uma cáqui). Comecei pelo básico mesmo. E são no joelho, pouca coisa acima. Qq dia posto uma foto. Mas é algo a se trabalhar na cabeça.

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  7. Mulher de bigode realmente é meio chocante. Estou sempre monitorando o meu. Nasceu um pelinho é pinça nele!!

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