sábado, 27 de março de 2010

Ex, igual e previsível

Minha ex-turma de faculdade vai fazer uma reunião para comemorar dez anos de formatura. Primeiro, eu fingi que não recebi e-mail. Aí encontrei uma ex-colega no ônibus e ela me avisou sobre o que eu fingi não saber, especificando data, horário e local. Ela falou que ia me inscrever na lista yahoo da minha ex-turma, que eu também finjo desconhecer. Dei meu e-mail verdadeiro a ela, porque sou péssima mentirosa e porque ela me acenou com a possibilidade de distribuir meu currículo. Como até hoje não recebi e-mail e nem convite, fingirei que esqueci a data (amanhã), a hora (meio dia) e o local (mesmo lugar onde a Cacau comemorou aniversário no ano retrasado) do encontro.

Nada contra minha ex-colega e nada contra a maioria dos ex-colegas. Digo o mesmo sobre ex-amigos e ex-namorados. É que não sou chegada em ex, qualquer tipo de ex. O problema de entrar em contato com ex é a previsibilidade. Reatar com um ex é bom e ruim sempre nas mesmas coisas. Tudo isso me entedia. Vi uma vez uma entrevista com o Luís Melo, onde ele dizia mais ou menos isso:

O melhor papel é sempre o próximo, deve ser sempre o próximo. Ficar marcado por um papel que você já fez, por melhor que tenha sido, corresponde à morte para um ator. Ele tem que se renovar, sempre.

Acho que na vida é assim também. De maneira mais poética:

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo o quadro de um dia para o outro, ser novo a cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção - isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser o que imperfeitamente somos.
Fernando Pessoa/ Livro do desassossego, p.124

6 pitacos:

  1. Gosto de café requentado...com o tempo, a gente vê a coisa se gastando, por mais que se force a barra.

    Seria muito mais produtivo se aprendêssemos a valorizar mais os momentos como eles são. Viver apegado a coisas passadas ou a projeções e expectativas nos tira do foco demais.

    E eu também estou dando uma de desentendido com um encontro de 5 anos de formado.

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  2. Eu não sei se eu considero a turma da faculdade, ex-turma. Eu meio que sinto que eles são e sempre serão a minha turma da faculdade, assim como o foi a turma do colégio, porque eu sinto que faculdade pode até ter acabado, mas os laços feitos não.

    Ainda mais faculdade de Engenharia, a impressão que você tem quanto encontra a turma é meio que "Band of Brothers", é legal rever os amigos que passaram por tantas "sufocos" junto com você.

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  3. Eu detesto este tipo de coisa. Se houve uma separação deixa assim.

    Só me encontro com dois ex-colegas e mesmo assim casualmente. É sempre festa quando vejo o Galli e o Paulo Ricardo.

    Ex-mulher? Só converso com uma que é extraordinariamente educada e mesmo assim só no telefone. Um dia nos encontraremos, pois temos sempre assunto. O resto... Desculpe, mas ex é mais ou menos como aquilo que levamos diariamente à lixeira. Pode ter serventia para outros, pode ser reciclado ou limpo, mas para a gente não serve mais.

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  4. Eu não gosto de pontos finais. Colocar um ex qqr coisa no lugar de ex, é encarrar.
    As reticências me encantam... vá saber pq?

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  5. Eu sou a perfeita bipolar nesse mérito.

    O texto é ótimo, adoraria conseguir colocar em prática com tudo que "EX" representa.

    De qq forma, essas reuniões comemorativas a cada 10 anos de um grupo de pessoas q foram "unidos compulsoriamente" (instituições de ensino em especial) não são pra mim.

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