sábado, 30 de janeiro de 2010

De novo

Nunca falei isso aqui, mas minha mãe há muitos anos está decepcionada comigo. Ela acha que estou perdendo tempo, jogando minha vida fora. Existem duas coisas no mundo que ela gostaria muito que eu fizesse: que fosse mãe, antes de meu relógio biológico me impedir de vez; e que seguisse a carreira universitária. Tudo parecia estar seguindo o plano quando em 4 anos eu fiz graduação e mestrado juntos. Terminei o mestrado um mês antes da graduação, e com louvor. Meu orientador queria que eu tentasse o doutorado naquele mesmo ano, mas eu estava esgotada, deprimida e me recusei. O passo seguinte foi sair do grupo de pesquisa. O grupo era motivado, ambicioso e publicava o tempo todo - menos eu. Só fiz um artigo que era um pedaço da dissertação; depois de anos de esforço, eu não conseguia nem ler, quanto mais escrever artigos científicos. Tudo o que eu queria era virar professora de sociologia, ter minhas turmas, meu dinheirinho. Passei um ano horrível, sem respostas para os muitos curriculos que enviei. As aulas de ballet eram a única coisa que me impediam de sucumbir.

O resto vocês já sabem: deixei de lado o projeto de ser professora e descobri a felicidade dançando. Num ano, entrei em um grupo de dança moderna. No ano seguinte, parti para outro grupo porque queria mais. O grupo que estou agora, de ballet, é realmente é tudo aquilo que faltava no outro. Mas parece que eu é que não sou suficiente para eles. Percebo que só me deixam estar lá porque eu pago minha mensalidade. Os bailarinos não acham bonitinho alguém da minha idade tentar dançar - para eles eu sou esforço e tempo perdido. Tudo era um sonho e o fato de estar dançando era o suficiente para mim. Meio sem convicção, às vezes meio deixando pra lá, durante esses anos eu tenho enviado curriculos para as faculdades.

Agora estou aqui, sofrendo de novo por querer ser professora e não conseguir vaga. Pela primeira vez nesses anos, diminuiria minha dedicação à dança com o maior prazer. Hoje eu sairia de lá com o maior prazer; cansei de ser condenada por não ser uma adolescente de pés virados para fora. Eles não me querem e nem os quero, mas parece que ser aluna de dança é a única coisa ao meu alcance neste momento. E enquanto meu mundo desmorona, minha mãe acha que tudo o que fiz nos últimos anos foi reprovável.



Indicação do Alessandro, que acertadamente achou a minha cara. E acertou mais ainda no momento de me mostrar. Muito obrigada, Ale!

5 pitacos:

  1. Por que vc nao se da férias da sua vida por uns 3 meses? Pegue um ônibus, va para um pais vizinho e viaje até enjoar. Vc encontrara pessoas incriveis e fara encontros que mudara sua vida. Abandone tudo temporariamente e vc voltara bem mais disposta a correr atras dos seus sonhos.

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  2. Não vou dizer que a sua mãe está errada, porque você já sabe disso. Foda da opinião materna é isso, mesmo quando sabemos errada, ainda assim nos afeta.

    dar aulas realmente é muito mais gostoso do que escrever artiguinhos acadêmicos...

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  3. Esse negócio de o mundo nos obrigar a "operar na configuração padrão", ferra a vida. Eu sou jornalista, mas hoje não escolheria isso. Talvez eu queira ser secretária, mas só de mencionar é motivo para olhos arregalados. Assim...então eu tenho algum problema pq com quase 26 anos eu não sei bem o que quero. (!?)

    Caminhante, eu admiro muito essa sua liberdade, pois a maioria não vai atrás do que realmente gosta. E na vida, não dá pra agradar todo mundo, especialmente os pais, pois a gente já sabe o que eles esperam de nós... só o mais do mesmo.

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  4. Na verdade, acho que meus amigos mais bem sucedidos financeiramente -- excetuando-se os médicos -- desviaram-se de sua formação. Mas estamos falando num dinheirinho e em ser feliz. Como disse a Lija, não sei se a operação na configuração padrão leva a algum lugar melhor, seja num ou noutro termo. Todos mandam as pessoas confusas fazerem concursos... Afinal, é uma sinecura mesmo. Os funcionários públicos me dizem que só serão demitidos se baterem no chefe. E ainda assim talvez se salvem. Mas não acho legal passar a vida fingindo que trabalho.

    Enfim, questão difícil mesmo. Poderias começar mandando tua mãe calar a boca e tentar jogar mais do teu lado. Não vale criticar sem ajudar.

    Bom, é complicado.

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  5. Sinceramente, a mãe é o menos complicado nessa história toda, ela só quer o bem dos filhotes. A vida nos ensina, nos obriga e nos chama o tempo todo ao trabalho, com título sem título, enfim, chega uma hora que viver de bolsa é impossível, uma hora ela acaba. Tem as contas pra pagar até o final da vida e ninguem vai paga-las pra voce, dá vontade de tirar férias de si mesmo sim, mas temos que encarar a realidade, fazendo cursos, tecendo hobbies, mudando de área e de ares...

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