Dançar ballet, pra muita gente, é um sonho de infância. Antigamente custava muito caro e tem gente que carrega esse desejo durante toda a vida. Então, acho que o fato de resolver uma frustração já é motivo suficiente pra começar a fazer. Isso sem falar nas outras vantagens, como melhorar a postura, a coordenação motora, o senso de ritmo, a força e o alongamento - não é à toa que o
ballet é o exercício mais completo que existe. E quem faz ballet fica com facilidade pra fazer quase qualquer outra dança, porque ele é a base da maioria.
Mas nem tudo são flores. Existem algumas experiências comuns a todo mundo que tenta entrar no ballet tarde. Em maior ou em menor grau, todo mundo que começa ballet tarde passará por:
Você vai se sentir gordaIndependente de quanto você pese, no ballet vai parecer que você está acima do peso. Primeiro porque as roupas de ballet foram feitas para mulheres com um tipo físico pouco brasileiro: magérrimas, pernas alongadas e finas, quadril estreito e pouco seio. Se você foge desse tipo, se olhará no espelho e sentirá que o collant não te favorece. Não é à toa que os bailarinos adoram usar preto. O outro motivo é a faixa etária das suas colegas de aula. Uma mulher magra não tem o mesmo corpo de uma adolescente ou uma pré-adolescente magra. Mais ainda adolescentes que aprendem a ter medo de gordura desde cedo e muitas vezes desenvolvem distúrbios alimentares.
Você se olhará no espelho e se sentirá gorda. Você voltará para casa e quererá fazer um regime. Talvez você precise e isso te faça bem, talvez não. O fato é que por mais que você emagreça, nunca será como elas. E isso não é ruim, porque a vida não é só ballet. O que cai bem num collant pode ser horrível lá fora. Lembre-se que o padrão de beleza do ballet é ainda mais cruel do que o de modelos.
Uma bailarina de 1,68 e 50 kg foi considerada gorda no Bolshoi.
Você vai se sentir velha e burraPra ser uma grande bailarina, é necessário começar cedo. Então, você tem duas alternativas: aprender lado ao lado com alguém muito (às vezes décadas) mais jovem do que você; ou dançar ao lado de alguém com a sua idade, mas com décadas de experiência. Viver uma situação dessas é um grande exercício de humildade. Ver uma criança executar lindamente um movimento que você nem entendeu como funciona é dose. Até seus professores poderão ser mais novos do que você.
Você se sentirá deslocada. Às vezes as pessoas poderão esquecer que você é jovem no ballet, e querer que você tenha uma confiança e um conhecimento que não tem. Ou o contrário: podem te tratar como uma vovó, uma retardada que precisa de milhares de explicações de coisas que deveriam ser óbvias, por achar que você é uma velha inútil. Porque seus professores aprenderam quando criança e não fazem idéia das milhares de regrinhas que fazem o corpo e a alma do bailarino. Eles nunca viveram num mundo onde meia ponta e transferência de peso não querem dizer nada. Assim como você aprenderá a ser bailarina, eles aprenderão a serem professores de adultos.
Você vai se sentir deixada para trásUma mulher querendo dançar ballet não é vista como uma criança que sonha em ser bailarina. Pra criança, existe a possibilidade de se destacar, de ser alongada ou não, de ter facilidade com certos movimentos, enfim, os professores se sentem formando alguém para o futuro. Isso não acontece quando a gente é adulto. Você pode receber apenas a atenção básica pra não cometer erros terríveis. Enquanto as outras sofrem com os gritos e marcações, você pode sair da aula sem ter ouvido uma única observação. Numa mistura de preconceito e realismo, vários erros que você cometeu podem ter sido deixados de lado, porque afinal você não vai muito longe mesmo... Mas quem pode dizer de antemão até onde você vai? Ninguém!
Quem pisa numa sala de aula por vontade própria - muitas vezes gastando do próprio bolso - é mais disciplinada, mais empenhada e tem mais equilíbrio emocional do que aquelas crianças que eles tanto investem. Na freqüência nas aulas, no esforço em cada movimento, na vontade de colocar em prática o que o professor diz, ao buscar outras coisas além das aulas; isso tudo pode mostrar às pessoas o quanto você é sincera e que merece atenção. Por outro lado, sempre haverá uma menina mais alongada, mais rápida, mais bonita e mais jovem. Lamento dizer, mas é para elas que estão reservados os solos, os papéis principais, a maior dose de atenção. Aos menos talentosos está reservado o corpo de baile. E, por mais que fazer parte desse mundo já seja uma felicidade muito grande, devo dizer que - grande, pequena, adulta, criança - se sentir para trás é sempre difícil.
Depois de tudo isso, a pessoa pode se perguntar: vale a pena? Eu vejo que se manter no ballet está muito mais ligado ao nosso nível de frustração do que qualquer outra característica. Ao tentar fazer um movimento e não conseguir, a gente sente vergonha e vontade de se esconder. Mas todas as outras pessoas da sala - os professores e todos os alunos - já passaram por isso. No ballet o imperdoável jamais é não conseguir fazer e sim desistir de tentar. Quem consegue suportar a própria auto-crítica, é recompensado fazendo o impossível.