quarta-feira, 29 de abril de 2009

Urbano-Passageiro

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Já tentei de todo jeito me vestir de maneiras mais femininas. Adoraria usar saias, vestidos e roupas de mulherzinha no meu dia a dia e não consigo. Até que eu li um consultor de moda sensato dizer que o estilo de vestir depende do jeito de ser e do estilo de vida. Isso pra mim nunca fez tanto sentido pra mim quando tentei usar calcinhas no estilo sunga com collant... Mas, mais do que fazer ballet, mais do que ter que levar mudas de roupas, mais do que qualquer quilo a mais ou a menos, o que realmente determina o meu modo de vestir é o fato de andar de ônibus. E isso não acontece só comigo. Todo mundo que anda de ônibus adota características em comum no seu vestuário- o estilo Urbano-Passageiro (vulgo Urbano-Pobre).

Quem anda de ônibus o dia inteiro é estudante e/ou descapitalizado. Espírito ecológico nenhum faz com que a pessoa troque o conforto de um carro por ônibus. Isso sem falar que os ônibus não costumam estar na frente dos lugares que precisamos, o que tornam todos os que andam de ônibus grandes andarilhos. Por isso, os três trajes fundamentais do Urbano-Passageiro são:

1 - Tênis confortável: pra correr quando o ônibus chega, pra ter boa aderência quando o ônibus freia, pra passar o dia inteiro pra lá e pra cá sem machucar o pé;

2- Calça jeans: pra correr quando o ônibus chega, pra subir e descer degraus sem mostrar nada a mais, pra ficar ao lado de pessoas taradas sem receio, pra usar muito e aparecer pouca sujeira;

3 - Mochila: pra correr quando o ônibus chega, pra ficar com as duas mãos livre pra segurar a barra nas viagens de pé, pra colocar a vida inteira lá dentro e não ficar com dor em um só lado do corpo.

É claro que existem algumas variações: tem dias que a gente vai de saia e bolsa (grande) porque quer a todo custo parecer mais feminina, um dia ou outro a pessoa coloca uma calça social ou um sapato. Mas todas as variações ao Urbano-Passageiro são punidas pelo próprio estilo de vida: mão ocupada ou incômodo em carregar peso de um lado só; mais cuidado ao sentar ou com os olhares; pé machucado no fim do dia e, claro, não conseguir correr quando o ônibus chega!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Pra que ballet?

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Quando fui ver o Dom Quixote que a Escola do Ballet Bolshoi apresentou em Curitiba o ano passado, descobri que apesar de tudo eu ainda não gosto de ballet clássico. Ainda, porque passei quase a vida inteira detestando e agora estou dentro dele. Quando vi o Bolshoi na minha frente, com suas pernas em ângulos que eu não imaginava possíveis, percebi que entre os entendidos o ballet é como um imenso jogos dos erros - aquele grand getté não abre 180º, nessa parte ela deveria dar 32 fouettés e só girou 30, a terceira bailarina da segunda fileira da direita pra esquerda se perdeu um pouco no tempo, etc. Coreografias e passos que têm uma maneira estrita e certa de se fazer, e que a gente fica comparando pra ver o quando se aproxima ou afasta do ideal.


E mesmo assim, o ballet resiste. Ele resiste porque não inventaram uma técnica que se iguale - ou pelo menos consiga chegar perto - em dificuldade. O ballet é obsessivo; existe uma maneira perfeita de se fazer em cada detalhe, o que retira tudo o que há de intuitivo no movimento antes do bailarino ter a liberdade de criar. O resultado disso é um artista com uma consciência corporal como nenhum outro, que conhece e domina seu corpo, que sente prazer nos desafios, que está acostumado a superar limites físicos como se estivesse (e de certa forma está) fazendo algo leve e prazeroso. Depois de dançar ballet clássico, o bailarino está pronto para dançar e partir pra qualquer outra disciplina física com uma larga vantagem. Todas as boas companhias de dança exigem bailarinos com formação clássica. Sem o ballet, não existiria o Grupo Corpo. E sem o Corpo, não existiria esta belíssima coreografia do espetáculo Bach:



Não é um preço que vale a pena pagar?

sábado, 25 de abril de 2009

Bactérias & tarados

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Eu já me declarei meio Monk aqui. Tenho uma certa nóia bacteriológica. Às vezes eu afasto pensamentos sobre o assunto, por medo de ficar fresca demais. A história de celular ser tão sujo quanto sola de sapato, por exemplo. O celular que eu estava usando nos últimos tempos, um Sony Ericsson Z530, vivia limpinho. Aí ele começou a dar problema com a bateria e voltei pro meu Nokia 3220. Apesar de mais antigo, eu adorava esse aparelho - ele é cheio de luzes e customizável, coisa de adolescente. Fingi que a falta de flip (e, por conseqüência, um número maior de bactérias) não me fazia ter pensamentos estranhos e fui em frente.

Aí o Nokia começou a dar problema e passou a só receber ligações. Ainda dos tempos antigos, tenho sempre na carteria um cartão telefônico. Eu estava disposta a mergulhar de orelha nas bactérias alheias quando fui assaltada por uma lembrança terrível... Os telefones públicos hoje em dia são cheios de papeizinhos com anúncios de prostitutas, certo? Pois um dia eu estava passando na frente de um orelhão e tinha um sujeito com dentes horríveis, daqueles que parecem de cavalo. Ele estava segurando o telefone com uma expressão tão tarada, mas tão tarada, que tive certeza de que ele estava marcando um programa. Agora, além da minha nóia bacteriológica, penso em todos os dentuços tarados que ofegaram naqueles telefones.



Definitivamente, preciso de um celular que funcione.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Fight!

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Antigamente a gente não tinha acesso aos ídolos. Se você escrevia pra alguém famoso, no máximo recebia uma foto com um autógrafo carimbado. Ou seja, o ídolo nem soube da sua carta. Agora com a internet todos ficamos mais próximos - escrever na comunidade do seu ídolo no orkut, mandar um comentário no blog, escrever uma resposta pela twitter. Assim, também ficou mais fácil aborrecer uma celebridade. Vejam como o Rafael Cortez perdeu todo tesão pelo blog depois de ter sido criticado pelo CQTeste do Ronaldinho. Anteontem o mesmo cara que me xingou na final do BBB, recebeu um vai tomar no cu do Danilo Gentilli por ter feito campanha de unfollow (isto é, campanha para deixarem de seguir o Danilo Gentilli). Ontem teve briga de grandes: Diogo Mainardi e Marcelo Tas. Perto do twitter, as brigas no orkut são de trincheiras.

Quem disse que vida de famoso é fácil? Canalizar mais atenção não quer dizer que ela seja boa...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Horror show

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Primeiro mês de casamento. Lembro nitidamente da minha sensação de horror ao perceber que teria que dormir ao lado de um homem usando absorvente. Pensei até em mandar um dos dois pro sofá nesse período, até realizar que não poderia fazer isso uma vez por mês nos longos anos (talvez todos) da minha vida conjugal. Quando a gente casa, simplesmente não dá pra manter certas privacidades longe dos olhos do outro.

Eu não vejo regra sobre o que o outro deve ou não ver. Minha vó tentou casar de novo e achou péssimo que o marido dela não apenas não achasse nada demais dela pintar o cabelo em casa como se propôs a ajudar. Tem gente que acha ver o outro na privada o fim, enquanto pra uns nunca trancar a porta do banheiro é sinal de liberdade. Tirar cravos um do outro, mijar enquanto tomam banho juntos, arrotar quando bebe coca-cola, usar a mesma escova de dentes, pode? O fato é que proibir todas essas coisas, na real, é tão estranho quanto sexo em novela - as pessoas mal terminam e já vestem um roupão. Branco, de preferência.

Pra mim, a pior coisa que a intimidade produz são casais que se maltratam. Na frente dos outros, então! Blergh!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Dicas de des-fengshui

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Eu já fui ávida leitora de livros de fengshui e já dei dicas informais sobre o assunto pra algumas pessoas. Os bons livros sempre diziam que com o tempo as coisas ficariam internalizadas e a gente terias as nossas próprias intuições a respeito desse assunto. Então, com internalizações e intuições, o que restou é uma série de regras que não tem nada a ver com letras chinesas, espelhos e todas as outras coisas que amantes de fengshui tanto adora. É um fengshui particular, que se parece muito mais com o livro Simplifique sua Vida, que eu adoro.

Aí vai o meu des-fengshui:

1. Quem é você?
Não acho certo dizer que a casa de alguém tem que ser assim ou assado. A pessoa deve se sentir bem dentro da sua casa, ela deve refletir o seu jeito. Não faz sentido não usar o número 4 se você não fala chinês*, ou encher a casa de símbolos que você nem sabe o que significam direito. Lindo é ver o dono de uma casa estampado em cada escolha, em cada objeto. Casas assim têm calor, têm história. Quando a casa fala do dono, nada é brega ou colorido demais. Uma casa linda que não se parece com o dono é como uma roupa chique que não é o estilo de quem está vestindo. Nesse sentido, acho que falta um pouco de coragem nas escolhas das pessoas.

2. Quais as suas prioridades?
A casa ideal é feita de acordo com o estilo de vida de cada um. Vou dar um exemplo: eu moro aqui há mais de 6 anos e até hoje não comprei uma mesa de jantar. E talvez nem compre. Quase nunca comemos aqui, não cozinhamos para os outros, não recebemos as pessoas pra comer. Então, pra quê? Pense em qual o cômodo que você mais usa em casa e o valorize; liberte-se da máxima sala-de-estar/sala-de-jantar. Vale tudo: transformar a sala em estúdio pra quem é músico, em escritório pra quem trabalha em casa, etc.

3. Tudo nos conformes
Ou, como se diz, cada um no seu quadrado. Muitas coisas chegam em casa e ficam no limbo dos objetos: eles vieram para ficar mas ainda não tem um lugar destinado a eles. Então eles ficam pelos cantos, em lugares temporários, atrapalhando a decoração original. Quando maior o limbo, mais desorganizada a casa é. Acho que olhar para as coisas sem saber se elas vão ou ficam é como manter muitas decisões em suspenso. Quanto mais rápido você puder decidir se guarda ou joga fora, menos um problema na vida. Nem que você decida que aquele lugar estranho é o lugar definitivo.

4. Use tudo
Não é incomum as pessoas precisarem de mais, sendo que na verdade não usam tudo o que tem. Casas enormes onde na prática somente um ou dois cômodos são usados. Armários abarrotados de roupas sendo que mais da metade não é mais usável. Geralmente isso acontece justamente com quem tem espaço demais. Quem vive em apartamentos apertados logo aprende que não dá pra ter tudo, senão a gente corre o risco de dormir na portaria.

5. Escolha o melhor
Dica do Simplifique sua Vida: ao invés de ter um monte de coisas que você não usa, escolha as melhores e passe o resto adiante. Pode ver: por mais limpezas que a gente faça, as coisas se multiplicam de maneira descontrolada. Se você não consegue mais abrir as gavetas, não é apenas porque ela está desorganizada: é provável que você tenha que jogar um monte de coisas fora. Lembre-se da máxima: se está há mais de 6 meses sem usar, é provável que não usará nunca mais. Isso sem falar que doar nos torna pessoas melhores.

6. Cheirinho de limpeza
Não tem como negociar: casa limpa é importante e ponto final. Eu não tenho faxineira e sei muito bem o quanto isso é difícil. Mas tem que ser. Mesmo porque a boa faxina sempre nos obriga a olhar todas as regras anteriores: se tem coisas sem classificação, se os móveis são adequados pra gente, se você se sente bem em casa. Limpar tira as coisas do lugar, organiza a vida, ajuda a pensar, exercita... enfim, nem preciso justificar. Lugares sujos passam sempre a idéia de abandono. Por mais que o nível de tolerância à sujeira seja variável, todo mundo se sente melhor num lugar limpo.

Não teve nada místico, né? Então aqui vai a última:

7. Pense simbolicamente
Não apenas a casa fala de si como fala para si. Mesmo sem notar, os objetos da casa estão constamentemente influenciando quem vive dentro dela. Quando falo de símbolos, não falo apenas de imagens religiosas; cada objeto é capaz de nos dizer algo bom ou ruim. Algo bonito pode trazer lembranças ruins se associado a uma situação ou pessoa de quem não gostamos. Como a minha mãe, que teve durante anos A Tentação de Santo Antão no quarto e depois passou a achar a imagem meio pesada de se olhar toda manhã! . Pra saber se o simbolismo é bom ou não, vale a regra dos sonhos: a intepretação mais importante é a do dono.


* Em chinês, 4 e morte se pronunciam de maneira semelhante. Por isso, na China, o número 4 é considerado de mau agouro. Alguns livros tentar importar essa regra, ignorando que aqui as duas idéias não tem a menor relação!

sábado, 18 de abril de 2009

A morte do cisne

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Quando falei sobre homens na ponta, procurei muito um bom link pra colocar sobre isso e não achei. Finalmente encontrei a famosa versão do Trockadero (o site oficial também é uma piada, vale a visita!), uma companhia de homens na ponta que fazem paródias de peças clássicas. Eles fazem a peça com todas as suas dificuldades técnicas, mas de uma maneira engraçada.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Too much information

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Numa manhã qualquer, na academia:

(Eu) Bom dia, Fulana, tudo bem?
(Fulana) Ah, mais ou menos...
(Eu) O que foi, algum problema?
(Fulana) É que minha filha está se separando. Aquela que mora nos Estados Unidos.
(Eu) Ah, que chato.
(Fulana) Ela é casada com um japonês lá, eles têm dois filhos pequenos. Ela não sabe mais o que fazer, porque o marido dela é viciado em sexo.
(Eu) o.O
(Fulana) No começo ela até tentou acompanhar, eles iam no clube juntos e tudo. Mas começou a ficar demais, ele queria o tempo todo e ela não conseguia mais satisfazer ele. Ele ficou louco mesmo. O marido da minha filha é 15 anos mais velho do que ela, eles têm dois filhos americanos, então pra ela fica muito difícil.
(Eu) É... o.O
(Fulana) Então ela me ligou e a gente não sabe ainda o que ela vai fazer. O que eu sei é que não dá mais, ele está terrível, quer sexo o tempo todo. Eu acho que o problema é que ele é japonês. Esses japoneses são todos malucos por sexo mesmo.

As pessoas sempre me contam mais do que eu gostaria de ouvir.



PS: Teca e Ale, não adianta perguntar que eu não digo quem foi!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

I dreamed a dream

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Alguns personagens da literatura são tão marcantes que se tornam pedaços de nós. Já tentei muitas vezes escrever sobre Os Miseráveis aqui, mas nada ficou bom. Assim como também tentei ver o filme e não consegui - na minha opinião, o filme resume justamente o que o livro tem de mais interessante: mostrar quem é Jean Valjean, entender as suas motivações e nos apaixonar por ele.

É no início do livro que sabemos que ele é preso por roubar comida pra sua família, de quem nunca mais tem notícias. Fala do sofrimento das galés, do preconceito que o persegue depois que ele é liberto, da incapacidade e do arrependimento de não conseguir retribuir a gentileza do primeiro a lhe estender a mão. Depois disso, a prosperidade de homem bom e solitário. Do reconhecimento público que se transforma de maneira ingrata quando a verdade vem à tona; as inúmeras oportunidades de ocultar a verdade de Javert, impedidas por sua tendência irresistível de fazer o bem. Mesmo Fantine também é injusta com Jean Valjean ao acusá-lo por sua decadência.

Depois de perder o nome, a fábrica, os aliados; depois de tudo ter possuído e perdido, depois de provar o lado mais mesquinho dos homens, Jean Valjean encontra a pequena Cosette. O casal que deveria cuidar da menina, os Thénardies (os piores personagens do livro inteiro), faziam Cosette de empregada. Era uma criança subnutrida, maltratada, que nunca recebera um único gesto de carinho durante toda a sua vida. Um homem forte e desiludido encontra uma criança ainda mais maltratada do que ele. Fantine ganha um pai, uma boa educação, torna-se bela e se casa. Marius, marido de Fantine, descobre que Jean Valjean era um ex-presidiário e afasta pai e filha. Isso tudo em meio à destruição de um mundo, causada pela Revolução Francesa.

Quem, senão a filha de Jean Valjean, poderia cantar algo assim?


Quem, senão uma solteirona feia, a quem todos estavam prontos para ridicularizar, poderia causar tanta comoção ao cantar I dreamed a dream num programa de televisão?

terça-feira, 14 de abril de 2009

Entrevista com Hitler

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Tem que prestar um pouco de atenção nas perguntas, porque o sotaque português atrapalha um pouco. Mas é muito bom!



Agora, se você estiver a fim de chorar, veja a história de Susan Boyle. No Pensar Enlouquece.

Cabeça de bailarina

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Para a bailarina, o corpo é fonte de trabalho e prazer ao mesmo tempo. É o prazer de descobrir os limites do corpo que a gente tem quando criança e vai perdendo à medida em que cresce (infelizmente!) o senso de ridículo. Aprender movimentos novos e cada vez mais complexos, ser capaz de coisas que antes pareciam impossíveis... Nem que pra isso seja preciso disciplina e uma autocrítica imensa. Dançar bem é o resultado de um longo processo de descoberta, de como o corpo funciona, de como aprimorar cada detalhe. Muitas pessoas com físicos perfeitos e talento ficam no meio do caminho porque encaram isso como tortura e não como vício. Para quem busca a perfeição, as críticas são essenciais e o ballet forma perfeccionistas. Simplificar, fazer o mais fácil, o menos doloroso ou o que exige menos do corpo, soa como fracasso. O maior exemplo disso é a questão da sapatilha de ponta. Apenas a mulher usa pontas no ballet clássico. Os bailarinos, ao invés de ficarem felizes de não ter que torturar os seus pés em cima do gesso, ficam frustrados. É muito comum os homens fazerem questão de usar pontas e aprender os complicados passos exclusivamente femininos, para se sentirem mais completos na sua técnica.

Por ser trabalho, o estado desse corpo não é uma questão de foro íntimo. Estar magro, belo e alongado é obrigação. A bailarina deve representar a beleza, tanto no físico como nos movimentos. No ballet, o crime não é não conseguir executar um movimento nas primeiras (que podem levar anos) tentativas - imperdoável é não tentar, não fazer de tudo para melhorar. E quando o limite é físico, forçar a natureza provavelmente provocará lesões e dores. Para quem faz ballet, a dor física faz parte da existência. Se fossem demonstrar no rosto a dor que sentem, provavelmente as bailarinas passariam o tempo todo fazendo caretas. Somente quando a dor é insuportável é possível parar - mas só um pouquinho. Porque se o corpo é um instrumento que deve ser constantemente afinado, dar-se um longo tempo atrapalha o que foi arduamente conquistado.

domingo, 12 de abril de 2009

História verídica com sogra e lição de moral

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Eu costumo dizer que possuo uma grave doença genética que herdei da minha mãe: a má sorte com sogras. Nossas sogras têm muitos pontos em comum: mulher tradicional, que sonhava em ter a família toda reunida aos seus pés. Sua expectativa para única nora era ter uma moça igualmente tradicional que ficasse sempre por perto, para trocar receitas e farpas. Apesar do perfil de boa moça, minha mãe (e eu também) nunca foi a candidata dos sonhos. Isso até se separar do meu pai.

Poucos meses depois da separação o meu pai apareceu com um baiana extrovertida, colorida, festeira e espalhafatosa. E com ela está até hoje. A partir do dia em que conheceu sua segunda nora, minha avó jamais perdoou o meu pai por ter se separado. De nora indesejada, minha mãe passou a santa. É claro que a mudança de status chegou aos ouvidos dela, mas já era tarde demais. Já de volta a Curitiba, ela tratou de trabalhar, criar os filhos, fazer faculdades, enfim, de tocar a vida pra frente.

Muitos anos depois, mais de 20 anos depois, meu irmão foi pra uma reunião de família e encontrou pessoalmente a irmã mais velha do meu pai, que por coisas do destino nunca nos viu desde crianças. Para surpresa dele, essa tia o recebeu com pedras. Por causa da separação e o sofrimento que minha vó sentiu, essa tia guardava uma mágoa e uma raiva tão vivas contra minha mãe, que o meu plácido irmão quase perdeu a cabeça numa discussão e teve que ir embora. Recentemente, uns dois anos depois desse encontro, minha tia morreu de câncer.

Moral da história: Perdoe. Não por bondade, e sim porque os outros não estão nem aí pra você. Quem sente raiva se consome sozinho.

Boa páscoa!

sexta-feira, 10 de abril de 2009

BBB e intolerância

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Acompanhar mesmo, eu só acompanhei o primeiro BBB e esse último. Nos outros, ligar a TV e ver aqueles bombadinhos fazendo UHU! me tirava a vontade na hora. Aí quando as pessoas começavam a falar demais, eu fazia igual fim de novela e dava uma olhada, só pra saber do que estavam falando. Por isso eu lembro do Thirso, da Grazi, sei que o Jean ganhou, ouvi falar que a Fani era bisca e batizei o limão que ganhei da Pepsi de Diego Limão, porque só se falava desse cara na época. Então, nunca torci pra ninguém e não entendia direito a histeria em torno do BBB.

Nesse ano eu fiquei doente bem na época da estréia. Como eu relatei aqui, fiquei com febrão e quando comecei a tomar antibióticos fiquei pior ainda, o que me deixou tonta na frente da TV durante 1 semana. Mas o que realmente conquistou meu coração foi acompanhar a cobertura engraçadíssima que o Big Bosta fez, e mais tarde passei a ler também o site da Scully. Pela primeira vez comecei a ter noção do que é o BBB, com viciados que assistem pelo pay-par-view, discussões apaixonadas e o assustador fanatismo dos fãs. Acho que nunca teria coragem de me expor num programa sabendo que aqui fora tem quem ame ou odeie de verdade seus participantes. Torcidas que xingam, julgam, se exaltam, uma coisa meio fora de controle.

Por falar em fora de controle, na final do BBB, eu e algumas pessoas começamos a comentar por twitter o que estava acontecendo. Mal começamos, e uma pessoa que teoricamente faz parte do mesmo grupo de amigos (os blogueiros de Curitiba), começou a nos chamar de burros sem a menor cerimônia. Que o Brasil não vai pra frente porque tem gente que assiste isso, que o BBB é o reflexo da burrice nacional. Eu comparo esse comentário à violência que sofri ontem, com a Dúnia - eu estava tranqüila, me divertindo pacificamente, e algo do além surge e me agride.

Pra mim é tão burro quem ama ou odeia um participante do BBB como quem odeia quem assiste BBB. Nos dois casos, são pessoas que estão tão certas de que são possuidoras da verdade que acham que têm direito de julgarem os outros. Eu não vejo nada demais em desconsiderar quem assiste BBB; mas vejo tudo demais em ser agressivo com estranhos apenas porque eles gostam de algo com a qual eu não concordo. É o mesmo raciocínio do racista, do homofóbico, do xenófobo, etc. Depois as pessoas olham pra essas coisas e não entendem o porquê de tanta violência. A violência assim: pequenos gestos baseados em grandes certezas.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Minha pobre Dúnia

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Hoje eu estava passeando com a Dúnia antes de ir pra aula quando surgiram 2 whippet de outra quadra e vieram correndo atacá-la. Eu sozinha na rua, gritando por socorro, sem ter como acudir a Dúnia. Não tinha uma pedra, nada por perto pra separar. Ela chorava, corria e não reagia. Se uns vizinhos não tivessem corrido, eles teriam acabado com ela ali mesmo. Os donos da casa não apenas não fizeram nada como a mulher ainda teve a ousadia de acusar a Dúnia, que nunca sai de casa sem guia, de um dia ter tentado atacar o filho dela! O Luiz já viu esses mesmos whippets atacando um cachorro na rua.

Levamos a Dúnia no veterinário e graças ao pêlo grande que ela tem, as conseqüências não foram mais graves. Ela vai ficar cada dia com mais medo de cachorro e eu não sei mais o que fazer pra passear com meu próprio cachorro pela rua, porque os OUTROS não cuidam dos seus cães.

Que mundo horrível esse que a gente vive onde nem um cachorro pode ser pacífico. :´(

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Corpo de bailarina

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Pra quem está de fora, a característica marcante do corpo de uma bailarina é a flexibilidade e a magreza. Na realidade, existem muitas nuances dentro desses dois critérios. Flexibilidade não é algo que se tem ou não; qualquer um que fez uma aula de alongamento na vida percebe que existem várias flexibilidades, e ser flexível em uma coisa não quer dizer ser flexível em outra. Existe flexibilidade de quadril, rotação coxo-femural (para fazer o famoso en dehors), flexibilidade na coxa, nos tendões, coluna para trás, coluna para frente, etc. Pra cada um, existem partes que respondem ao alongamento mais facilmente do que as outras. O ballet exige uma flexibilidade acima da média em quase todos os níveis.

A magreza também tem nuances. Nem todo mundo tem o mesmo corpo quando é magro - a proporção das pernas varia, o tamanho da cintura, a largura do quadril, o tamanho dos seios, os ombros, tudo isso influencia. A bailarina ideal não é uma mulher grande que emagrece. Pra começar, nem muito alta ela deve ser. Sobre as pontas, a bailarina fica 10 cm maior. Como ela não pode parecer mais alta que o seu parceiro, é melhor que ela não seja muito alta. Seios grandes, quadris largos e coxas grossas funcionam bem com os homens, mas ficam horríveis de collant e tutu. A bailaina deve ser leve o suficiente para ser erguida, ter membros longos pra valorizar os passos, as mãos expressivas e até mesmo as orelhas bonitinhas por causa do coque.

Por todos esses critérios fenotípicos, existem pessoas que nasceram mais próximas ao corpo ideal do que outras. Mas mesmo as que nasceram com esse corpo próximo ao ideal estão em constante batalha: pra manter o peso sempre baixo, pra ficar forte e erguer a perna cada vez mais alto, pra ficar sempre flexivel apesar dos exercicios pesados, pra manter o corpo atento aos inúmeros detalhes - da ponta dos pés à expressão do rosto - que o corpo deve mostrar. Da cintura pra baixo uma guerreira e da cintura pra cima uma princesa, o corpo de bailarina sente uma dor que nunca deve chegar ao público.


(Nos links do post, a maravilhosa Polina Semionova)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Fotos antigas

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Quando o Luiz Antônio voltou para Salvador e disse que deixou algumas fotos nossas de infância num pen drive, confesso que nem liguei. As semanas se passaram ocupadas e minha mãe também não me dava o tal pen drive. Até que fomos ajudar na mudança do André, que agora volta pra Curitiba no seu próprio canto. Ele também não tinha visto as fotos e quis gravar antes de ir. Vimos as fotos juntos e sei que ele sentiu a mesma coisa que eu, por dizer:

- Ver essas fotos muda até a imagem que a gente tem do pai. Olha ele novinho!



A vida passa muito, muito rápido. Viver é assim, uma coisa maravilhosa e assustadora. A gente não percebe que cada manhã começa algo novo, que a instante um pedaço vai embora e surge outra coisa no lugar. Algumas mudanças são grandes e anunciadas, outras imperceptiveis - mas tudo sempre muda, tudo está em constante movimento. Estar com as pessoas é apenas um encontro, irrepetível, um pequeno milagre, uma bolha de sabão. Todo encontro - seja ele compulsório, feliz, conflituoso, intenso ou indesejado - um dia chega ao fim.

domingo, 5 de abril de 2009

Conversa no Inter 2

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(Amiga 1) Esses dias a minha patroa me chamou pra ver um abajur novo que ela comprou. "Quanto você acha que custa esse abajur?", ela perguntou. Eu disse "Eu não dava 50 reais". Ela ficou puta, disse que era exclusivo de um artista e tinha custado 600 reais.

(Amiga 2) Então o da sua patroa é até baratinho, porque aquele da minha que fica do lado da lareira custou uns 1500 reais!

(Amiga 1) Pois é, esse custou 600 reais, aí ela apontou pro outro e fez questão de falar que custou mais de 1000 reais. Ela ficou matutando porque eu disse que não daria nem cinquenta e depois do almoço acredita que ela veio com o assunto de novo? Disse que a loja de decoração que ela compra aquelas coisas todas pra casa nem é uma loja comum, dessas que todo mundo entra. Ela disse que você tem que falar no interfone na frente qual o nome do seu decorador, pra daí eles abrirem a porta. (....) Eles fazem questão de mostrar pra gente que gastam 1000 reais em abajur, 10000 em festa pro filho, viagem pra Miami... mas aumento que é bom nada!


Na verdade, o papo começou assim:

(Amiga 2) Existe tanta gente com dinheiro por aí, tanto dinheiro, tanto dinheiro que a gente nem sabe como seria. O que essa gente faz com tanto dinheiro assim?

(Amiga 1) Esbanja, minha querida, esbanja.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Vida de cão

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Quando mandamos a Dúnia para o adestrador, ele nos disse que o problema era que ela "não se via como cachorro". Ela veio pra cá muito pequena e frágil, por isso não teve contato com outros cães quando criança e cresceu se achando gente. Isso fez falta na formação dela. Primeiro que ela é parecida um pastor e morre de medo de cachorro. Há poucos dias ela foi atacada por um lhasa e só fugiu. Qualquer cachorro, por menor que seja, é capaz de enfrentá-la.

Mas é na interação com machos que eu fico com vergonha alheia. Apesar de castrada, a Dúnia fica louca quando vê um macho. Quando eles se aproximam dela pra cheirar, ela fica tão feliz que perde as estribeiras. Ela se apoia nas patas de trás e dá um corridão neles. Um dia ela voou pra cima de um poodle, batendo com as duas patas no peito dele. Claro que depois disso eles não querem mais nada com ela. Isso sem falar em regras básicas de etiqueta - sou eu que tenho que impedi-la de se aproximar de outros cães comendo ou cagando.


Se até cães têm problemas de interação com o sexo oposto, imagine seres falantes e complicados como nós.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Blogs e pizzas

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"Ih, olha lá, mais uma!". Cada vez que eu vejo abrir uma nova pizzaria, imagino que existe um insensato por detrás dela. Insensato sim, porque não precisa ser analista de mercado pra perceber que cada bairro de Curitiba já tem um monte delas. E o fato desse sujeito ter moto e fazer uma boa pizza não quer dizer que ele vai conseguir viver de pizzas. Se fazer pizza gostosa é fácil pra ele, é fácil pra muitos outros maiores e melhores do que ele.

Assim também é o mundo dos blogs. Às vezes eu tenho a impressão de que todo mundo que tem twitter tem blog. É só passear pelos perfis que você descobre um número infinito de blogs, a maioria deles muito ruins. Não sei dizer quantos mereceram apenas uma visita. Ou quantos eram até bons, mas a data da última postagem era tão antiga que aquilo cheirava a projeto fracassado. Espantosa também a quantidade de blogs ruins com Adsense e afins. Como se blog fosse uma maneira de ganhar dinheiro fácil .

Assim como pizza, é fácil fazer blog. O difícil é ter um conteúdo interessante o suficiente pra se destacar. Gostar de um assunto, por si só, não torna ninguém um bom escritor sobre ele. Um bom exemplo disso é a quantidade de blogs que existem sobre livros - nem todo leitor tem algo a dizer sobre os livros que lê. Outra coisa que parece simples mas não é: ser crítico do cotidiano. Andar pela cidade e dizer as impressões que ela passa, criticar as políticas públicas, opinar sobre o que rola nos jornais... muita gente já faz isso muito bem e com autoridade. Por que eu me interessaria em ler o que um adolescente qualquer tem a dizer sobre a educação quando eu posso consultar o Gilberto Dimenstein? Só vou no adolescente se ele me disser algo inédito, impensado.

É isso o que eu penso como consumidora. Pra saber como fazer do seu blog um sucesso ou para viver disso, melhor consultar alguém que realmente entende do assunto. Porque este aqui, como dá pra notar, não me rende nada além de amigos. ;)