{Eu sou Zé Ninguém; quando falo mal da arte contemporânea ou da importância do mercado ninguém me dá crédito. Por isso reproduzo - com prazer - trechos dessa entrevista, que confirma o que eu sempre pensei}
O australiano Robert Hugles, de 68 anos, é o mais conhecido crítico de arte vivo. Por três décadas, ele foi editor da revista americana Time. Dono de um estilo tão erudito quanto implacável, produziu ensaios brilhantes e também ficou famoso por destruir reputações (....)
Veja: Por quê? (a influência de Duchamp sobre a arte contemporânea foi libertadora mas também catastrófica)
Hughes: Porque ser o pai dessa bobagem chamada arte conceitual não é uma distinção de que se orgulhar. Para compreender o tamanho do estrago, basta dizer que sem ele hoje não haveria as chamadas instalações, aquelas obras tolas em que o espectador é convidado a passar por túneis e outros recursos infantis. Ou precisa ler uma bula de remédio para entender o que o artista quis dizer.
Veja: Nos últimos anos, obras de grandes artistas atingiram preços astronômicos nos leilões. O que explica que se paguem 104 milhões de dólares por uma tela de Picasso?
Hugues: Francamente, não consigo imaginar uma boa razão. Os preços se tornaram tão obscenos e sem sentido que, a meu ver, só podem ser resultado de algum tipo de doença social. As pessoas que se sujeitam a pagar tanto por um quadro são movidas por motivações ridículas, como ostentar prestígio e poder. Não compactuo com essa insanidade.
Veja: Não há arte que valha tanto assim?
Hugues: Para mim, nem a maior obra-prima. A supervalorização atende aos interesses de certos marchands e colecionadores, mas é danosa para a arte. Passa-se a se valorizar um artista ou tendência em função de seu cacife no mercado, e não da importância de suas realizações. Além disso, sua transformação em bem de consumo de luxo muitas vezes dificulta que um dia o grande público possa contemplá-las no museu.
Veja: Nas últimas décadas, o interesse pelas artes plásticas parece ter diminuído - desde sua saída da Time, por exemplo, a revista não tem dado o mesmo destaque ao tema. A arte perdeu a sua centralidade?
Hugues: É triste, mas o fato de as pessoas terem obsessão pelos altos preços pagos por quadros famosos não significa que elas queiram saber algo mais sobre a arte em si. Ela passou a ser vista apenas como um item a mais no entretenimento, como as atrações de cinema ou TV. E também a ser avaliada com base nos mesmos parâmetros. Fala-se de um artista não por sua relevância, e sim pelo valor que suas obras atingem - como se fosse o orçamento milionário de um filme. Ou por sua popularidade - como se fosse o índice de audiência de um programa. É uma visão distorcida.
O australiano Robert Hugles, de 68 anos, é o mais conhecido crítico de arte vivo. Por três décadas, ele foi editor da revista americana Time. Dono de um estilo tão erudito quanto implacável, produziu ensaios brilhantes e também ficou famoso por destruir reputações (....)
Veja: Por quê? (a influência de Duchamp sobre a arte contemporânea foi libertadora mas também catastrófica)
Hughes: Porque ser o pai dessa bobagem chamada arte conceitual não é uma distinção de que se orgulhar. Para compreender o tamanho do estrago, basta dizer que sem ele hoje não haveria as chamadas instalações, aquelas obras tolas em que o espectador é convidado a passar por túneis e outros recursos infantis. Ou precisa ler uma bula de remédio para entender o que o artista quis dizer.
Veja: Nos últimos anos, obras de grandes artistas atingiram preços astronômicos nos leilões. O que explica que se paguem 104 milhões de dólares por uma tela de Picasso?
Hugues: Francamente, não consigo imaginar uma boa razão. Os preços se tornaram tão obscenos e sem sentido que, a meu ver, só podem ser resultado de algum tipo de doença social. As pessoas que se sujeitam a pagar tanto por um quadro são movidas por motivações ridículas, como ostentar prestígio e poder. Não compactuo com essa insanidade.
Veja: Não há arte que valha tanto assim?
Hugues: Para mim, nem a maior obra-prima. A supervalorização atende aos interesses de certos marchands e colecionadores, mas é danosa para a arte. Passa-se a se valorizar um artista ou tendência em função de seu cacife no mercado, e não da importância de suas realizações. Além disso, sua transformação em bem de consumo de luxo muitas vezes dificulta que um dia o grande público possa contemplá-las no museu.
Veja: Nas últimas décadas, o interesse pelas artes plásticas parece ter diminuído - desde sua saída da Time, por exemplo, a revista não tem dado o mesmo destaque ao tema. A arte perdeu a sua centralidade?
Hugues: É triste, mas o fato de as pessoas terem obsessão pelos altos preços pagos por quadros famosos não significa que elas queiram saber algo mais sobre a arte em si. Ela passou a ser vista apenas como um item a mais no entretenimento, como as atrações de cinema ou TV. E também a ser avaliada com base nos mesmos parâmetros. Fala-se de um artista não por sua relevância, e sim pelo valor que suas obras atingem - como se fosse o orçamento milionário de um filme. Ou por sua popularidade - como se fosse o índice de audiência de um programa. É uma visão distorcida.
Entrevista: Robert Hugues - O guardião da arte
Revista Veja, edição 2005 - ano 40 nº16
25 de abril de 2007


5 cositas:
gostei do blog.
;)
pra mim, a arte vai até final do século 19 e comecinho do 20...depois disso, afe....
no comments about it..
Por essas e por outras , q a arte se tornou algo tão distante das pessoas.Tornou-se inatingível.Criou um mundo mínimo ,só seu. O que é lamentável.
E isso me lembra o quadro do Letermman ,o se o quadro foi pintado por um artista moderno ou por um macaco :-P
Eu li essa matéria, e adorei!
Ah, faltou essa resposta maravilhosa tbÇ
Veja – Antes de se tornar um crítico, o senhor atuou como cartunista e também pintava. Há alguma verdade no velho clichê de que todo crítico é um artista frustrado?
Hughes – Absolutamente nenhuma. Eu me considero um artista completo, nem um pouco frustrado. Minha arte é escrever. Nunca tive inveja dos artistas nem escrevi nada com o intuito de me vingar deles.
Abraço,
Diego
http://casadogalo.com
Falando em quadros caríssimos, por que os do Manabu Mabe o são?
Desde que me conheço como gente que se interessa por pintura não me conformo com isso; valores astronômicos para pinturas que, francamente, mais me parecem que foram produzidos derrubando-se um ou mais baldes de tinta sobre a tela e depois passando a vassoura por cima!
Por certo o especialista em artes me reprovaria – "coitadinho..." – por não compreender a arte abstrata, mas... até a justificativa para o valor dessa arte precisa ser igualmente abstrata? "Ele retratou o que sentia, não o que estava vendo..."; significa então que, por mais simplório e ridículo que seja, o que importa é o sentimento, não a mensagem? Então vou perfurar um quadro virgem com um murro e intitulá-lo como "Pernilongo", pois esta é a vontade que estou sentindo quanto a estes miseráveis insetos neste exato instante e que interpretaria, não o pernilongo como ele é, mas como este é sentido.
(: P
Pra mim, arte é o que fez o H. Bosch, o Dali, o Di Cavalcanti...
(Me perdoe pelo desabafo provavelmente indevido)
Postar um comentário