terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Gerações

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Meu pai era o único homem numa casa cheia de mulheres. Minha mãe conta que quando ficavam hospedados na casa da minha vó, meu pai ficava diante da TV vendo jogo e pedindo aos gritos que fizessem as coisas por ele. Era um tal de "mãe, me trás uma latinha de cerveja" pra lá e "Hulda, muda o canal pra mim" pra cá. O hábito, diria mais, a convicção de ser servido era tão arraigada que minha mãe não conseguia fazê-lo mudar, e acabava entrando no esquema também.

Décadas depois, estavamos eu e o meu pai na varanda da casa dele. Era um típico dia de verão em Salvador, ou seja, muito quente. Estávamos curtindo a sombra, numa leseira tão grande que nem ao menos conversávamos. Ele terminou um gole da cerveja e quando foi se servir de outra viu que a garrafa estava fechada. Procurou um abridor, não achou e me pediu:
- Trás um abridor de garrafa pra mim?
- Eu não.
- Por que não?
- Tô com preguiça.
- Ah, traga!
- Eu não. A cozinha é longe. E eu nem bebo cerveja.
- Poxa, eu estou te pedindo um favor. O que é que custa você trazer um abridor de garrafas pra mim?
- Claro que custa. Se não custasse, você mesmo ia.

Não se preocupem, que ele não ficou sem cerveja e nem ao menos teve que ir lá buscar. Bastou dar um grito e minha madrasta trouxe o abridor.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ovelha negra

6 cositas
De uns tempos pra cá tenho me sentido fascinada pela figura da ovelha negra. Fui num quiosque que faz camisetas personalizadas e fiz uma com uma grande ovelha negra pra mim. Se fosse de fazer tatuagem, hoje tatuaria uma ovelha negra nas minhas escápulas. Mas eu teria que levar meu próprio desenho, assim como fiz com a camiseta, porque na minha concepção a ovelha negra não tem olhar mau. Ela é tão boa quanto qualquer outra velha, só que é negra.

O Luiz não entende o porquê do meu fascínio e ri quando digo que me identifico, que me sinto uma ovelha negra. Ele não vê como uma pessoa de hábitos tão certinhos como eu pode dizer um absurdo desses. Pense bem: que culpa tem a pobre ovelha se nós atribuímos às cores branco e preto qualidades relativas à pureza e maldade? Ela nasceu tão ovelha quanto as outras, indiferente ao que nos desperta. Se as ovelhas simbolizam a passividade e falta de senso crítico, por que criticamos a que é diferente? Como se deixar de ser igual aos outros fosse necessariamente terrível ou violento, ou seja, Black Sheep. Fazer um filme de terror com uma ovelha é quase como a fronteira final.

Se uma ovelha soubesse dos imaginários a seu respeito, mesmo uma bem retinta, com certeza comeria placidamente sua grama.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Adeus

4 cositas
Fica parecendo que a iniciativa do adeus é de quem foi embora. Nem sempre, porque ir embora é o fim de um processo. Às vezes o outro quer que a gente vá, mas por algum motivo - dinheiro, culhões, imagem - não o faz. Então manda mensagens, manifesta seu desagrado diariamente com picuinhas. O outro tem uma sensação estranha, percebe uma coisa aqui e outra ali. Primeiro, acha que foi um dia ruim, que é uma interpretação maldosa, que foi coincidência. E vai levando, ignorando e relevando muita coisa. Até que um acontecimento sem importância une todas as peças, e a verdade cai no colo como uma fruta podre. Não dá mais pra fugir de uma decisão.

Sim, dá pra ser político à espera de algo melhor. Alguns decidem ficar só pra provar o seu valor, pra reverter o jogo e aí sim ir embora. O que não deixa de ser uma maneira de reconhecer o fim sem dizer adeus. Ficar quando tudo conspira para que você saia, é entrar numa queda de braço sem se divertir. Será que não é mais saudável colocar um The End antes dos silêncios se tornarem mais freqüentes e constrangedores? Melhor partir; antes das relações começarem a azedar, antes dos danos na auto-estima se tornarem irrecuperáveis, verdadeiros traumas. É um direito dos mais sagrados o de dizer adeus, porque não é pra tudo na vida que a gente pode dar as costas.




Adeus, ballet.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Quentinho

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Fiz uma viagem de intercâmbio com vinte e um anos. Foi um período curto no tempo e pessoalmente muito marcante. Chegando lá, fui rapidamente integrada ao grupo dos intercambistas, todos latinos. Éramos como uma família, ficavamos juntos o tempo todo. A cidade e os nativos eram apenas cenários para um encontro improvável de brasileiros, argentinos, mexicanos, colombianos, peruanos e chilenos.

Nesse grupo estava um sociólogo chileno que havia se exilado em Paris na época de Pinochet. Ele me contou que se endureceu um pouco para conseguir aguentar o que viveu. Com a idade de quando o conheci, ele se viu com uma pequena mala, sozinho numa cidade que não lhe oferecia luz alguma. Sem família ou amigos, teve que aprender a se virar. Aceitou todo tipo de emprego, aprendeu francês na marra, viveu com pouco, sentiu falta da família. Baseada na experiência dele e no que eu mesma estava vivendo naquele exato momento, lhe perguntei:

- Manuel, na verdade não importa muito onde a gente está, né? Se você tem um trabalho razoável que te permite viver com conforto, e se sente querido pelas pessoas à sua volta, o resto acaba ficando em segundo plano. É isso mesmo?

Sim, era assim mesmo. Ele passou mais de dez anos em Paris. Fez doutorado, casou com uma francesa, teve uma filha. Na prática, ninguém vive em Santiago ou Paris: cada um transita por um número limitado de ruas, encontra sempre a mesma centena de pessoas, freqüenta sempre os mesmos lugares. O importante é conseguir criar um lugar quentinho, se sentir querido dentro do seu pequeno mundo. A diferença entre o exílio e o lar é o aconchego.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Gênia

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Essa é uma dessas lembranças muito antigas, cuja data não consigo determinar. Acho que o cenário é um apartamento em Curitiba, então deveria ter uns 5 anos. Não lembro o que foi que eu fiz ou falei que motivou minha mãe a dizer isso. Sei que foi a primeira vez que ouvi algo que me repetiriam por toda a vida, de maneiras diferentes e em diversos tons diferentes:

- Você é muito geniosa!

Foi a primeira vez que ouvi falar aquela palavra e deve ter sido a primeira vez que me davam uma característica particular. Algo meu, algo que não tinha a ver com o fato de ser criança, filha ou estudante. Pelo som, pelo que já sabia do mundo e pelo que eu adivinhei, algo em mim cresceu e se sentiu feliz. Enchi os pulmões de ar, meu queixo subiu um pouco e eu repetia para mim mesma:

- Eu sou uma gênia!

Claro que minha mãe não demorou pra descobrir que, quanto mais eu ouvia ela me chamar de geniosa, mais feliz eu ficava. Então, não tardou de colocar os pingos nos iis e quis me fazer descer do Olimpo onde involuntariamente ela me colocou:

- Quando eu digo que você é geniosa, não estou querendo dizer que você é uma gênia. Geniosa quer dizer teimosa, cabeça-dura. Você é muito teimosa e isso não é um elogio, é uma característica ruim.

Achei aquilo uma ignorância. Como alguém poderia achar que a palavra geniosa não tinha parentesco com a palavra gênia e sim com teima? Era radicalmente diferente. Não começava com a mesma letra, o i ficava no lugar errado. É claro que geniosa não significava aquilo. Por isso, mesmo depois da explicação, eu enchia meu peito de ar, levantava levemente o queixo e pensava:

- Eu sou uma gênia!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Cântigo Negro

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Não vou repetir minhas hesitações em gravar minha voz.

Quando escrevi o último post, estava muito triste. Aí o Alessandro colocou o Cântico Negro no twitter. Fiquei tocada e percebi alguns aspectos diferentes da questão. Como diz a expressão muito batida, foi a coisa certa na hora certa. Foi por isso que eu gravei, apesar... é a única voz que tenho, fazer o quê.

sábado, 30 de janeiro de 2010

De novo

5 cositas
Nunca falei isso aqui, mas minha mãe há muitos anos está decepcionada comigo. Ela acha que estou perdendo tempo, jogando minha vida fora. Existem duas coisas no mundo que ela gostaria muito que eu fizesse: que fosse mãe, antes de meu relógio biológico me impedir de vez; e que seguisse a carreira universitária. Tudo parecia estar seguindo o plano quando em 4 anos eu fiz graduação e mestrado juntos. Terminei o mestrado um mês antes da graduação, e com louvor. Meu orientador queria que eu tentasse o doutorado naquele mesmo ano, mas eu estava esgotada, deprimida e me recusei. O passo seguinte foi sair do grupo de pesquisa. O grupo era motivado, ambicioso e publicava o tempo todo - menos eu. Só fiz um artigo que era um pedaço da dissertação; depois de anos de esforço, eu não conseguia nem ler, quanto mais escrever artigos científicos. Tudo o que eu queria era virar professora de sociologia, ter minhas turmas, meu dinheirinho. Passei um ano horrível, sem respostas para os muitos curriculos que enviei. As aulas de ballet eram a única coisa que me impediam de sucumbir.

O resto vocês já sabem: deixei de lado o projeto de ser professora e descobri a felicidade dançando. Num ano, entrei em um grupo de dança moderna. No ano seguinte, parti para outro grupo porque queria mais. O grupo que estou agora, de ballet, é realmente é tudo aquilo que faltava no outro. Mas parece que eu é que não sou suficiente para eles. Percebo que só me deixam estar lá porque eu pago minha mensalidade. Os bailarinos não acham bonitinho alguém da minha idade tentar dançar - para eles eu sou esforço e tempo perdido. Tudo era um sonho e o fato de estar dançando era o suficiente para mim. Meio sem convicção, às vezes meio deixando pra lá, durante esses anos eu tenho enviado curriculos para as faculdades.

Agora estou aqui, sofrendo de novo por querer ser professora e não conseguir vaga. Pela primeira vez nesses anos, diminuiria minha dedicação à dança com o maior prazer. Hoje eu sairia de lá com o maior prazer; cansei de ser condenada por não ser uma adolescente de pés virados para fora. Eles não me querem e nem os quero, mas parece que ser aluna de dança é a única coisa ao meu alcance neste momento. E enquanto meu mundo desmorona, minha mãe acha que tudo o que fiz nos últimos anos foi reprovável.



Indicação do Alessandro, que acertadamente achou a minha cara. E acertou mais ainda no momento de me mostrar. Muito obrigada, Ale!