Meu pai era o único homem numa casa cheia de mulheres. Minha mãe conta que quando ficavam hospedados na casa da minha vó, meu pai ficava diante da TV vendo jogo e pedindo aos gritos que fizessem as coisas por ele. Era um tal de "mãe, me trás uma latinha de cerveja" pra lá e "Hulda, muda o canal pra mim" pra cá. O hábito, diria mais, a convicção de ser servido era tão arraigada que minha mãe não conseguia fazê-lo mudar, e acabava entrando no esquema também.
Décadas depois, estavamos eu e o meu pai na varanda da casa dele. Era um típico dia de verão em Salvador, ou seja, muito quente. Estávamos curtindo a sombra, numa leseira tão grande que nem ao menos conversávamos. Ele terminou um gole da cerveja e quando foi se servir de outra viu que a garrafa estava fechada. Procurou um abridor, não achou e me pediu:
- Trás um abridor de garrafa pra mim?
- Eu não.
- Por que não?
- Tô com preguiça.
- Ah, traga!
- Eu não. A cozinha é longe. E eu nem bebo cerveja.- Poxa, eu estou te pedindo um favor. O que é que custa você trazer um abridor de garrafas pra mim?- Claro que custa. Se não custasse, você mesmo ia.
Não se preocupem, que ele não ficou sem cerveja e nem ao menos teve que ir lá buscar. Bastou dar um grito e minha madrasta trouxe o abridor.
